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ESCOLA
DE CANTO DE ÓRGÃO
Música praticada
em forma
de
DIÁLOGO
Entre
Discípulo, e Mestre.
PARTE I
da
Musica Theorica.
DIÁLOGO
Preliminar, ou introdutório, no qual se mostra a estimação, que sempre teve, e deve ter a Música pela nobreza da sua origem, e excelências de suas virtudes, e por fim se propõem os principais preceitos da Arte.
Por dar desafogo ao ânimo, ocupado em exercícios de Minerva intentou buscar alívio em uma tarde nos primores de Flora certo Músico de conhecida nota. Saiu enfim ao prado, lisonjeiro matiz da Primavera: e a poucos passos, recreando a vista no mimo das flores, viu na sua puerícia recortado na relva (como em berço de esmeraldas) a um gentil Menino, que no pesado semblante mostrava padecer de algum cuidado. Teve-o também o prudente Músico em observar de mais perto, o que presumiu de longe. Continuou os passos, e aproximou-se ao lugar, ou fosse por curioso, ou por compassivo, se não era para ali mesmo a vereda, que levava. Levantou-se político o Menino, que além da gravidade, que representava em seu aspecto, com as urbanidades do cortejo roubou tanto as atenções do varão Músico, que o obrigou com maior gosto, e vontade a parar também ali. Sentaram-se ambos; bem que o cortês Menino, ou em abono da sua boa educação, ou em presságio de futuros sucessos, [p. 2] nem foi o primeiro, nem quis sem muitas ser segundo. Verdade é que era Músico varão por Mestre conhecido, como aqui com a letra M o denotamos: mas, para tanto respeito, não era ainda o Menino seu Discípulo, como já também aqui o denotamos com a letra D. Enfim observando o Músico, descobriu logo no Menino maiores evidências de cuidado: e para poder saber qual fosse, travou com ele conversa, a qual foi desta maneira.
M. Foi sempre, meu Menino, o semblante do rosto índice do coração: e oscuro de alguma pena, ou cuidado julgo estar agora o vosso, pois o mostra o vosso rosto submergido entre sombras de tristeza. Se dela me podeis dizer a causa, o estimarei; porque sendo de coisa, que caiba na minha esfera, tende por certo que de boa vontade vos darei o remédio.
D. Na verdade, Senhor, que não vos enganais; porque aflito certamente estou de algum cuidado, cuja causa sem repugnância vos direi, ou obrigado da vossa caridade, ou do meu próprio interesse; pois não será esta a vez primeira que ache alívio talvez o mal comunicado.
Sabei, pois, que olhando para a nobreza do meu sangue, e vendo a obrigação, que tenho de o ilustrar com os esmaltes das boas artes, e ciências, entre elas (por inata inclinação) desejava com maior vontade aplicar-me a aprender a Música; mas vejo-o tão abatida dos nobres deste país, que receio deles (por aprendê-la) alguma nota, ou menos preço à minha pessoa. E deste receio por uma parte combatido, e por outra da minha própria inclinação, estava aqui agora pensativo, sem saber resolver-me ao que fizesse: que não é fácil resolver-se o homem contra a própria inclinação.
M. Desgraçada é a Música em nossos tempos, por isso é tão desprezada; mas nem por isso deixa de ser aquela nobilíssima ciência, que S. Agostinho 1 proclama Arte Divina: e queixando-se (já então) que a sua nobreza não era conhecida, antes desprezada na terra: Quoniam vilescit in terris: ameaça ao mundo com dizer que tornará a recolher-se no Céu. E diz o mesmo Santo Doutor, e com ele os mais Teólogos 2 que o ser alguém amante da Música, é ter uma tal qual congruência, ou sinal de predestinado. Porque, como ensinam os Pitagóricos 3 e Platônicos, a parte superior da nossa alma tem com ela tal vínculo, e parentesco, que a deseja, como a centro 4; e por isso começa logo na terra a gostar do exercício, que há de ter depois no céu. Segui, pois, meu Menino, segui nessa parte a vossa inclinação; que a ciência da Música tem muitos abonos para dar, e não para tirar a estimação. S. Gregório Magno Papa não deixou de ser grande pela saber, e ensinar ele mesmo aos meninos (ainda quando enfermo) para cantarem no coro 5. S. Luiz Rei de França não abateu da Cesarea Majestade, nem Carlos Magno 6 deslustrou a Imperial coroa, por saberem Música, e cantarem publicamente em honra das solenidades, e cultos da Igreja.
D. Parece que dizeis bem; e já com esses exemplos quase me sinto abalado: mas como são antigos, e falando a respeito da minha pátria (pois dela nunca saí) vejo tão abatida esta ciência, pode ser que ainda assim queira mais depressa deixar de a aprender, do que arriscar a opinião da minha nobreza com os meus iguais, que de presente a desestimam.
M. Oh (outra vez) desgraçada Arte da Música, tão desprezada, hoje dos néscios, como estimada sempre dos sábios, e grandes do mundo! Mas [p. 3] que tenho que admirar-me, se sempre dos néscios foi desprezada a sabedoria? 7 Sapientiam, atque doctrinam stulti despiciunt. Se soubéreis, meu Menino, que coisa é Música, quanto por Deus nos é recomendado, seus admiráveis efeitos, sua nobreza, e as estimações que sempre teve, e deve ter, talvez que sem mais repare vos aplicásseis a ela antes, do que às mais ciências.
D. Pois sendo assim, folgarei muito de ouvir alguma coisa, ao menos para recreação do ânimo, e lisonja da vontade.
M. Com muito gosto o direi: e já que assim o quereis, dai-me atenção. A 1ª. coisa, que aqui agora se nos oferecia, era o dizer que coisa é Música: mas como nos poderá faltar a tarde, e isso não faz agora muito ao nosso intento, vamos primeiro, e já dizendo alguma coisa da origem, nobreza, e estimação da mesma Música.
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- Div. August. lib. 1. suae Mus.[↩]
- Matut. na Pro sap. de Christ. edad. 4. cap. 11. §. 8.[↩]
- Apud Boet. in sua Mus. Lib. 3[↩]
- Pedr. Sanch. de Vien. na traduc. de Ovid. Metam. apud Maced. Eva e Av. part. 1. cap. 22. num 2.[↩]
- Paul. Diac. in vita.[↩]
- Alexand. Perier, Deseng. de Peccad. discurs. 5.[↩]
- Prov. 1. 7.[↩]