Escola de Canto de Órgão – Parte I – Diálogo I – Documento II – Artículo IV

Artículo IV
Declara-se como com as mais ciências se por em arte a Música: seus diversos nomes apelativos: e como de seus professores deve com todo o cuidado ser estudada, e bem entendida

§. 1.
Dá-se a conhecer a causa, porque com as mais ciências se por a Música em arte

D. Pelo que vos tenho ouvido, não tenho dúvida, em que com as mais ciências infundiu Deus também a Música nos homens: nem também a tenho, em que antes de posta a Música em artes, se cantava: a dúvida porém que tenho, ou o que agora desejo saber, é o como, ou por que motivo esta com as mais ciências se reduziu, ou pôs em arte.

M. A total causa, e motivo de acharem os homens as ciências e artes, não só liberais senão também as mecânicas, diz com outros D. Pedro Cerone 1 que foi a necessidade, ou pobreza. Confirma o seu dito com aquele provérbio de Eurípedes 2 que diz que a pobreza faz saber: Paupertas sapientiam sortita est. Donde tomaram doutrina os antigos Gregos para proverbiarem também eles que a fome, e necessidade é mestra de muitas coisas: Multa docet fames. O Poeta Mantuano 3 o mesmo parece nos quis inculcar, quando disse:

……………..…………… Labor omnia vincit
Improbus, et duris urgens in rebus egestas

O trabalho mais insano
Na pobreza mais urgente
Deu remédio a muita gente
Sempre no gênero humano.

Theognides 4 ainda se explica mais claro: pois supondo as ciências, e artes como adormecidas no humano entendimento, diz que a pobreza única, sem mais outra causa, foi o que acordou e despertou a Retórica em Diophanes Metyleneo: querendo nisto dizer que Diophanes, obrigado das necessidades e pobreza, a descobriu e ensinou; pois é a pobreza a doutora mais sábia do trabalho, e a mestra mais douta dos estudos. Notai as suas palavras.

Unica paupertas Diophan[t]es suscitat artes:
Ipsa Laborandi doctrix, studii que magistra.

Foi de Diophanes tal
A pobreza, que sentia,
Que de fome perecia,
Sem padecer outro mal.
Deu-lhe este remédio: qual?
Estudar com todo o empenho,
E ensinar com desempenho
Da Retórica os preceitos;
Pois, para os altos conceitos
Destas, tinha claro engenho.

Esta necessidade, e pobreza traz consigo o homem (como ninguém ignora). Logo dos primeiros rasgos da vida, pois apenas nasce, quando já no mundo entra miseravelmente nu e despido.

D. Sim, senhor, isso assim é: mas por que assim despido e nu criou Deus ao homem, criando vestidas as aves de penas, os peixes de escamas, os brutos de lãs, ou outros reparos, e as árvores de casca, ou cortiça, como dando-lhes assim armas defensivas, e reparativas das coisas contrárias?

M. Não sabeis o porquê? Pois é porque aos mais animais criou Deus sem discurso, e ao homem criou com entendimento artificioso, do qual usando, e imitando com a arte a natureza, poderia achar não só reparo para a desnudez, senão também remédio para todos os mais incômodos da vida. Isto não podiam fazer as mais criaturas, por irracionais; e por isso todas elas logo na sua criação e nascimento foram vestidas, e só o homem não.
Esta foi a causa, e motivo de se inventarem e introduzirem as artes e ofícios no mundo; pois existindo todas (ainda que incógnitas, e como adormecidas) no entendimento do homem, e obrigado o homem da necessidade urgente, tratou por vários modos de buscar, e idear tão diversos remédios para as incomodidades e misérias da vida, quanto elas são também diversas. O P. Ricardo de S. Victor 5 assim o declara: Theorica Ignorantiam expellens, Sapientiam illuminat: Practica Vitium excludens, virtutem roborat: Mechanica penuriam cavens, vitae praesentis defectum temperat. Por isto, e para isto trataram de praticar, e exercitar os seus inventos: estes, de tal sorte com o exercício se foram apurando, polindo e aperfeiçoando, que vieram depois com o tempo a estabelecer-se por artes. Por isso com razão diz Hugo de S. Victor 6 que todas as ciências primeiro estiveram em uso, que se pusessem em arte. João Pontanos 7 abona, e certifica o mesmo, dizendo que das experiências, e longuíssima observação dos homens é que nasceram as instituições e preceitos das artes: Ab experimentis ortae sunt Institutiones, et praecepta artium, ea que ab observatione Longissima Sumpta.
Tudo o referido confirma Marco Crasso 8, citado pelo Príncipe da eloquência, dizendo que todas as coisas que hoje em si contêm e encerram as artes, primeiro estiveram dispersas e separadas; assim como na Música estiveram os números, as vozes e os modos: Omnia fere, quae sunt inclusa nunc artibus, dispersa, et dissipata quondam fuerunt; ut in Musicis numeri, et voces, et modi. Certo é logo que primeiro se experimentaram, observaram, exercitam, purificaram, e puseram em toda a boa razão os inventos dos homens, para depois poderem ser, e chamarem-se artes; porque como diz Platão 9 não se deve chamar arte aquela que carece de razão: Non est ars appellanda, quae ratione caret. Seguiram no polimento dos seus inventos os homens, e tomaram por mestra a natureza; a qual como diz o filósofo 10, sempre apetece o melhor: Natura semper desiderat id, quod melius est: e assim imitando a natureza em escolher sempre o melhor, estabeleceram as artes; que por isso com razão disse Sêneca 11 que toda a arte é uma imitação da natureza: Omnis ars est imitatio naturae.
Por isto, e para isto em todas as obras científicas entrou a arte; por meio da qual se veio a conhecer o incógnito, a ajuizar o obrado, a emendar o falso, a compor o novo, a corrigir os abusos, a suprir o defeito, a dissipar o excesso; e pouco a pouco se foram todas as ciências pondo em regras, que são as que dão o ser às artes. Antes que houvesse artes no mundo, é certo que gramaticavam os homens, filosofavam, advogavam, cantavam, e tudo o mais faziam: mas tudo sem ordem e sem a perfeição, e bizarria, que hoje. Donde bem claro aparece que ainda que no uso tivera o princípio as artes, são sem controvérsia as artes muito melhores que o uso: e tanto melhores que chega a afirmar Pitágoras 12 que a arte não só ajuda, mas supre os defeitos da natureza: Ars adjuvat, et supplet, ubi natura deficit. Averroes 13 abona o mesmo, dizendo que a arte aperfeiçoa muitas coisas que não pode aperfeiçoar a natureza: Ars multa perfiit, quae natura perficere non potest. Eis aqui o préstimo das artes: e eis aqui o como, e o porquê elas entraram no mundo: e eis aqui finalmente o como com as mais teve também motivo a Música para se reduzir, ou pôr em arte.

§. 2.
Principia a notícia dos diversos nomes apelativos e expressivos de diversa Música: declara-se de cada um deles a sua significação, a diferença: e mostra-se primeiramente a diferença que entre si contraem os dois 1os. Música, e Canto

D. Tratando da etimologia do vocábulo Música, lembro-me, mestre, de haver-vos ouvido que das águas tirou Moisés as melodias, e que antes dele não teve a música outro nome senão Canto. Resta-me agora saber 1º. Que coisa é melodia? 2°. Se pelo nome Canto se explica o mesmo que entendemos pelo vocábulo Música? 3°. Se tem a música mais nomes que a signifiquem? 4º. finalmente: Por que antes de Moisés não teve a música outro nome, senão Canto; ou se algum outro podia ter então, dos que hoje tem?
M. A Música, meu menino, exprime-se não só pelo vocábulo Canto, senão também por outros muitos, como são Monodia, Sinfonia, Harmonia, Melodia, Modulação e Concento. Todos estes nomes se costumam confundir, e receber na mesma acepção de Música: mas o certo é que todos eles a respeito da Música (que entre eles todos é gênero) são como espécies subalternas, que exprimem diversas sortes de Música. Assim o ireis observando: mas, para mais claridade, vamos por partes, e comecemos pelos dois primeiros, Música, e Canto, mostrando a diferença, que entre si contraem. Ora notai.

Música

Este vocábulo Música, haveis de saber que ou se toma pela ciência, e Arte de cantar, ou pelo mesmo canto, e ato de cantar. Dela tomada na 1ª. acepção, em que respeita a theorica, vos dirá toda esta obra nos documentos, que formos dando: e tomada na 2ª. em que respeita à prática, não só significa geralmente todo o ato de cantar (porque de todo o ato de cantar se verifica que é música) mas, e mais propriamente aquele canto, que cientificamente se produz, ou se efetua com plena notícia da Arte, e todo ajustado às regras da boa ciência. E porque só é perfeito o canto assim, regularmente produzido; por isso é este somente o que em rigor se deve exprimir pelo vocábulo Música; segundo aquilo de Platão 14, que Música só é, e deve chamar-se aquilo que é, ou está perfeito. E como a Música não podia ser perfeita, sem ser regular; nem ser regular, senão depois de posta em arte; nem foi posta em arte, senão muito depois de Moisés; por isso julgamos (e parece que com razão) que antes de Moisés não se devia chamar Música.

Canto

Podia porém a Música antes de Moisés chamar-se Canto, porque a Música, que por este vocábulo propriamente se significa, não obriga a tanto aperto; pois para haver Canto propriamente tal, não se requer que seja científico, ou efetuado com plena notícia, e inteligência da Arte. No que não há dúvida, pois também cantam os que totalmente a ignoram: e só se requer (segundo a definição que lhe dá Estevão Roseto 15: Cantus est dulcis consonantia vocum: Canto é uma doce consonância de vozes) que expressamente haja ato de cantar com atual produção de vozes consonas, prescindindo de tudo o mais. Aliás não se tomaria também pelo canto das aves, como já o tomou o Mantuano 16:

Ut reduces illi Ludunt stridentibus allis,
Et caetu cinxere polum cantus que dedere.

Como as aves, que vieram
Outra vez em vasto bando,
E pelos ares voando
Alegres seu canto deram.

E aqui se deve advertir que, segundo Calepino 17 também se exprime pelo vocábulo Canto o tanger dos instrumentos artificiais: Canere etiam is dicitur, qui fides, organa ve pulsat, aut qui tibias inflat.

§3
Dá-se a conhecer a diferença que há
entre Músico, e Cantor?

M. Desta referida diferença entre Canto, e Música manifestamente se segue também a que há entre Músico, e Cantor. Porque para ser cantor, basta que um atualmente cante, ou possa cantar, prescindindo de ser com perfeita ciência da Arte, ou prática dela: mas para ser Músico, não basta que um tenha a prática, nem qualquer medíocre, e superficial ciência da Arte: mas há de ter dela notícia plena, inteira, e perfeita, com a qual genuinamente possa entender, e dar a razão do que canta, e todos os termos dela. Por isso ao que é só, e puramente Cantor (assim chamado à Cantu, ou à canendo) explica Guilherme Durante 18, dizendo que Cantor é, ou se chama o que canta: Cantor itaque vocatur, qui vocem modulatur in cantu. Estevão Vaneo 19, seguindo a Andre Meyningense 20, diz que cantor é aquele, que com longo exercício de cantar aprendeu os preceitos da música e os exercita, e deduz à ato de cantar com o som da voz: Cantor est autem, qui cantando diutina exercitatione Musicae praecepta capescit, vocis que sono promit, et ad actum deducit. Pelo mesmo está o P. Fr. Angelo 21: mas a este por outro modo define o P. Kircher 22, dizendo desta sorte:

Bestia, non cantor, qui non canit arte, sed ussu

O que por uso Cantar,
E a Arte bem não entender,
Não Cantor se há de dizer,
Mas besta se há de chamar?

Pelo contrário diz o mesmo Kircher 23 que só é perfeito Músico (assim chamado de Música) e se deve chamar tal, aquele, que é juntamente prático e teórico; e que não só sabe compor, senão também dar a razão de todas as coisas da Arte: Solus itaque perfectus Musicus est, et dici debet, qui theoricam praxi jungit; qui non tantum componere novit, sed etiam singularum rerum rationem reddere potest. Boécio 24 diz que de justiça só merece o nome de Músico aquele, que especulativamente, e como convém à ciência Música, sabe resolver, escrever, entender, e julgar dos modos, ritmos, e gêneros da mesma Música: Isque musicus est, cui adest facultas secundum speculationem, rationem ve propositam, ac Musicae convenientem de modis, ac rhythmis, de que generibus cantilenarum judicandi. E Fr. Agelo Piccitono 25 diz que Musico ê quello, il qual ensegna la scientia del canto con vera ragione, non tanto al servitio dell’opera, ma alla sumitá dell’imperio con la ragione speculativa. Nicolao Burcio 26 convém no mesmo: Speculativus Musicus est, qui ratione ducente, canendi scientiam non servitio operis, sed imperio speculationis assump sit.
O cônego D. Angelo Berardi 27, e o Abade Guido Aretino 28, a quem seguem muitos outros, fazem também entre Músico, e Cantor a mesma bem notável diferença: mas como são memoráveis as suas palavras, bom será que as repitamos. As de Guido, pois, são estas.

Musicorum, et cantorum magna est distantia:
Isti dicunt, illi sciunt, quae componit Musica.
Nam qui facit, et non sapit, definitur bestia.

Entre Músico, e Cantor
Grande a diferença é:
Este diz sem saber quê,
Sabe aquele com primor.
Por isso ao que é professor,
E inteligência não tem,
Somente lhe frisa bem
A definição de besta;
Pois da Música, como esta
Ignora os termos também.

Se deste digno apelido se desgostarem os que são puramente Cantores, tenho a consolação de que não poderão verter contra mim com razão as suas iras, pois não sou eu o que lho dou; e só repito (para glória de alguns néscios presumidos) o que em honra sua escreveram as doutíssimas penas dos PP. Guido e Kircher. As de Berardi são estas: Cantore ê quello, che essercita il canto senza saper rendere la ragione de la scienza; Musico ê quello, che ha la theorica, e la practica, havendo per lungo uso di tempo dato opera al comporre, e sonare, sapendo rendere la ragione del loro operare. Destas palavras do Cônego Berardi, e das pouco acima citadas do P. Kircher, poderá alguém querer entender que para dignamente se merecer o predicado honorífico de Músico, basta que um tenha exercício, ou prática de compor sem perfeita inteligência, e theorica. Porém não basta: antes também este será compositor besta; falando na frase Guidoniana, e Kircheriana. Porque só o compor com theorica, sabendo conhecer, e dar a razão de tudo o que ali se obra, é requisito adequado para constituir a um homem verdadeiramente digno de poder chamar-se Músico. Suposto isso,
Vêde agora com quanta razão disse Franquino 29, que meios melhor, e mais digna coisa é saber cada um o que faz, do que fazer o que sabe: Multo auctius est, atque dignius scire quod quisque faciat, quam illud ipsum eficere, quod sciat. E a razão diz o mesmo Franquino que é 30, porque tanto difere o homem ciente do homem ignorante, quanto o homem vivo do homem pintado: Nam tantum differt homo sciens ab homine non sciente, quantum homo vivus ab homine picto. A este propósito diz Roseto 31, que o Músico comparado com o Cantor, tem a mesma paridade que o juiz com o pregoeiro. Porque o pregoeiro apregoa e publica os decretos do juiz, sem saber a causa, pela qual assim obrou em os fazer: e o juíz não só sabe os decretos, senão também a sua causa: Est ergo Musicus compatus Cantori, sciut judex praeconi; praeco nam que decreta judicis edicit, et proclamat in scius qua de causa fiant: judex autem et decreta, et eorum rationem novit. Pois da mesma sorte o Músico com o Cantor. Este canta, e entoa a obra alheia, sem saber, nem entender a contextura da obra, e sabe as causas, porque assim a fabricou, ou foi por outro fabricada.
O Papa João XXII 32 finalmente compara o cantor com o ébrio, que sim sabe tornar à sua casa: mas é pelo uso de ir à ela, e não de outra sorte; pois não entende, nem sabe, nem dirá por que rua tornou. Não assim o Músico que tal, que sai, e torna para a sua casa Música, e nela entra, e anda sem ignorância, como homem de perfeito juízo, e claro conhecimento. Mas basta de digressão: tornemos nós também ajuizados ao nosso intento, e continuemos a proposta matéria dos diversos nomes apelativos, e expressivos de diversa Música.

§4
Continua-se a matéria dos diversos nomes apelativos,
e expressivos de diversa Música.

D.Tornando outra vez aos diversos nomes expressivos de diversa Música, e continuando a sua notícia pela mesma ordem, com que nos referisteis; Segue-se que em primeiro lugar me digais donde se deriva, e que Música propriamente se significa, pelo vocábulo

Monodia

M. Pelo vocábulo Monodia se exprime o cantor a solo: e tomado em todo o rigor, significa o Canto triste, e saudoso, produzido por um só, como afirma Roseto 33, a quem segue Lorente. Ambrosio Calepino 34 o confirma, dizendo que o canto que por este vocábulo se significa, é triste, como o da carpideira nos funerais dos defuntos: Lugubris cantus, qui fit à praefica in defunctorum funerebus, quasi unus cantus. Vem da dicção grega Monos, que vale tanto como unus, e de Dia, que em Latim vale ex, ou per: e tudo junto soa tanto, como Música produzida por um só, ex uno. Por isso, por este nome dizemos que se restringe o canto, e se determina a ser a solo. O que suposto, passemos aos mais.

Symphonia

Symphonia propriamente significa o canto à duo, que é aquele doce som, que se produz, e compõem de duas vozes, cantando ambas a um tempo mesmo com a diferença de grave, e agudo, isto é, em consonância. Assim, expressamente o disse com outros Roseto 35: Est autem Symphonia duarum vocum disparium inter se junctarum dulcis concentus. Chama-se assim do vocábulo grego Symplonin, que quer dizer soar, ou cantar juntamente, como explica, e interpreta Calepino 36. Anglico 37 com S. Isidoro a define por concordante conveniência de sons, ou vozes graves, e agudas: Symphonia est temperamentum modulationis in sonis gravibus, et acutis concordans. Está escura esta definição; porque não declara o número de vozes, que se exprime pelo vocábulo Symphonia. Portanto rejeitamos esta, e abraçamos a primeira: a qual serve também para exprimir aquela consonância, que entre si fazem diversos instrumentos, que tangem obras para eles compostas a duo: antes, no comum sentir de todos os Modernos, este é o seu mais próprio significado.

Harmonia

Harmonia é vocábulo, pelo qual se significa propriamente a coadunação, e concordia de muitas vozes diversas em um só concento. Assim a definiu Roseto 38: Harmonia est diversarum vocum coadunata in unum concordia. E quanto maior for o número das vozes (que já se vê que há de ser de três para cima) e maior a variedade das espécies, mais suave, e mais doce Harmonia se fará. Chama-se assim de Harmos, dicção Grega, que vale o mesmo que em Latim condunatio, ajuntamento de muitas coisas em uma só, como é na Música o agregado de muitas vozes em um só concento. É sentir de André Lorente 39; ainda que Calepino 40 diz que Harmonia se diz assim da dicção Grega Harmozin, que significa concordar: e certamente a Harmonia se produz de vozes, por suas proporções, e distâncias, bem concordadas. Bartholomeo Anglico 41 leva outro caminho, dizendo que a harmonia se diz assim de ad, e monos, dicção grega, que (como já dissemos) em latim vale unus: e por interpretação de Hugo 42 é o mesmo que dizer que todas as partes, ou vozes no Canto se encaminham à uma só concórdia, e união: Dicitur Harmonia ab Ad, et Monos, id est, unum; quia ad unam concordiam tondunt in cantibus omnes voces, ut dicit Hugo. Finalmente a Harmonia toma-se também, segundo Calepino 43, pelo som bem ordenado das cordas, e vozes dos instrumentos: Musici Harmoniam vocant intensionem, concentum que nervorum in integros modos sine ulla offensione consonantium.

Melodia

Pelo vocábulo Melodia entendemos aquele canto de muitas vozes, cuja suavidade, e doçura é apta para conciliar o agrado, e deleitar o sentido. Difere da Harmonia, em que esta respeita aquela suavidade, que procede de boa composição e artifício da obra, a qual por estar bem ordenada, debaixo das regras da Arte, produz boa consonância: e a Melodia respeita de mais disto uma suavidade natural, e intrínseca às mesmas vozes, que a produzem por apta modulação, e quebros acomodados ao Canto, suposto primeiro o artifício da obra, como primeira causa. Deriva-se de Melos 44, palavra Grega, que significa isto mesmo: Est autem melos cantus suavitas ex apta vocis modulatione, et flexu proficiscens. De dois modos é finalmente, ou podemos dizer que é a melodia, natural, e artificial. A natural consiste só na suavidade da voz, como explicam as citadas palavras de Calepino: a artificial, como avisa Cerone 45, consiste no mesmo artifício da obra, e diz Platão 46 que consta de três partes essenciais, oração, harmonia e ritmo: Melodia ex tribus constat, oratione, harmonia, et rhythmo. Daqui se infere 1° e legitimamente se segue que não pode haver Melodia artificial, sem que primeiro se dê a harmonia; pois é esta uma das suas partes essenciais. 2°. que ainda que a consonância, a dissonância, e a harmonia possam nascer não só das vozes, senão também dos sons; a Melodia só pode nascer das vozes, porque só estas são capazes da oração ou das palavras, que são também sua parte essencial.

Modulação

Modulação propriamente é o movimento, que faz a voz passando de um ponto, ou de um som a outro por diversos intervalos com medida, doçura, e concerto 47: concerto na voz, doçura no canto, e medida não só nas quantidades harmônicas, por onde se passa, para a boa afinação, senão também na quantidade numeral das figuras, que pede a maior, ou menor velocidade dos gorjeios, com que se faz o dito movimento bem regulado na medida do compasso. Chama-se modulação de Modulor, vocábulo Latino, que (em sentido músico) significa medir com a voz, ou compor com certa medida: senão dissermos que se chama assim de Modus, ou Modulus, que ou significa aquela medida, que observam os Músicos, quando cantam; ou o mesmo canto, e quebra da voz, como sente Calepino 48.

Concento

Pela palavra Concento, segundo Platão 49, se significa a ordem, que há entre voz aguda, e voz grave, em bem soantes, e proporcionadas distâncias à um mesmo tempo produzidas, como é no Canto de Orgão o misturado som que produzem cantando juntamente os baixos, tenores,contraltos e Tiples: Concentus est ordo, qui in voce acuta, et gravi simul contemperatis apparet. Requer o concurso de muitas vozes, como se entende de Cícero 50: Qui acuta cum gravi temperans aequabiliter concentus efficit: e mais claramente se Sêneca 51: Ad musicam transeo; doces me quomodo inter se acuto, ac graves voces consonent, quomodo nervorum disparem reddentium sonum fiat concordia: e não pode haver concento em menos de duas vozes, senão daí para cima. Vem do verbo Concino, que significa cantar juntamente. Serve para expressar, além do canto dos homens, também o dos instrumentos, como se entende das referidas palavras de Sêneca; e juntamente o das aves, como se lê no poeta 52:

………. Hinc ille avium concentus in agris.

§5
Mostra-se que também os referidos nomes não
podiam apelidar a música antes de
Moisés, e porque causa.

D. Com muito gosto, senhor, vos tenho ouvido a explicação, e etimologia dos diversos nomes apelativos de diversa Música: mas como vós vos esquecestes de me dizer, agora vos pergunto eu, se ao menos algum dos referidos nomes podia merecer antes de Moisés antigamente a Música?

M. Se hei de dizer o que sinto, é que estes nomes só os podia merecer a Música depois de posta em arte: em arte foi posta muito depois de Moisés; Logo antes dele nenhum deles lhe devia competir. O nome Harmonia não; porque antigamente, segundo o P. Kircher 53, todo o Canto era monódico, id est, de uma só voz: ao qual só podia convir o vocábulo Monodia, pelo qual só se explica o canto a solo, como fica declarado: e se alguma vez era polyodico, isto é, de muitas vozes, era produzido com polyodia natural, e irregular, semelhante a que hoje muitas vezes vemos nas oficinas dos alfaiates, e outros trabalhadores. Mas não assim a polyodia artificial, em que consiste a Harmonia; porque esta, para ser tal, deve contar de muitas vozes dessemelhantes, e regularmente dispostas, como escreve o Duque de Atri 54: Harmonia est concinnitas quaedam vocum non similium. Esta regularidade (a qual é certo que só depois da arte podia haver), bem se dá a entender pela palavra concinnitas.
Além disto aquela polyodia podia resultar de duas só vozes diferentes, e não de mais: e a Harmonia, ou polyodia artificial, e regular ensina Franquino 55 que deve resultar ao menos de três, scilicet, uma extrema grave, outra extrema aguda, e outra média, que entre as duas extremas constitui o meio harmônico, que é rigorosamente o em que consiste a Harmonia: Harmoniae ex acuto, et gravi confïciuntuntur, atque medio. Disse ao menos de três vozes, porque (como já dissemos), quanto maior for o número das vozes, mais suave também, e mais doce Harmonia se fará: não porque faça maior número de consonâncias do que as três; mas porque compreende, e abraça maior distância; e nesta maior número de intervalos, de que resulta mais perfeição à Harmonia. Assim o disse o mesmo Franquino 56 por estas formais palavras, das quais muito melhor consta a regularidade, e arte, que há de conter a verdadeira Harmonia; pois diz que há de constar de proporções, que causem boa consonância: Rationabiliter idcirco diximus, quod secundum naturam, et artem rationabiliter eveniunt, ut diatessaron, et diapente, atque diapason, et reliquae habitudines, quae sonos in sonoro disponunt instrumento, auribus bonam, et suavem consonantiam affluentes, et equidem excelsiores sunt, atque perfectiores. Zarlino 57, explicando a definição 4. do 2. ragionamento das suas Demonstrações Harmônicas, também requer para a Harmonia simples as mesmas três vozes, que Franquino, duas extremas em grave, e agudo, e outra média, que divide em duas as proporções dos extremos.

D. Bem está: mas a polyodia natural dos antigos gregos é crível que ou sempre, ou quase sempre, se exercitasse entre duas vozes: donde parece que a Música antes de posta em arte, ac per consequens antes de Moisés se não mereceu o nome de Harmonia, bem podia chamar-se Symphonia; pois esta acima me dissestes com Roseto que é o doce concento, que resulta de duas vozes desiguais, ou diferentes por grave, e agudo, que entre si se ajustam, e unem: Symphonia est duarum vocum disparium inter se junctarum dulcis concentus.

M. Também esse nome parece que o não deveu merecer a Música antes de posta em arte. Porque além de que o concento das duas vozes da Symphonia, para ser perfeito, deve ser regulado pela arte, que (como supomos) ainda então não havia; a Música, que mais propriamente se significa, no comum sentir de todos os Modernos, por este nome, como já dissemos, é a que se compõe a duo, ou a que de entre si produzem os instrumentos pela composição de duas vozes distintas por gravidade, e agudeza regular: e deste modo não consta que naquele tempo entre os gregos houvesse, ou se tocassem os instrumentos.
Também não se devia antes chamar a Música Melodia; porque esta, como já dissemos, ou é natural, ou artificial. A artificial, que consiste no mesmo artifício da obra, é certo que naquelas antiguidades a não havia, pois ainda então não havia arte. A natural, que consiste na intrínseca, e natural suavidade das vozes, essa sim, concedemos que a houvesse, posto que imperfeita, tosca, e irregular; e não (como hoje) regular, perfeita, e polida. E aqui advertimos com D. Pedro Cerone 58 que este vocábulo Melodia só é próprio para expressar a Música, que produzem as vozes, mas não a que resulta de instrumentos.
O nome Modulação explica a Música suave, ou da Música aquela suavidade, que procede do movimento da voz que se move de um a outros pontos por diversos intervalos com medida (como entendo) não se pode perfeitamente conseguir sem arte, por mais que a voz tenha natural doçura, e suavidade; que havemos de dizer, senão que também este nome não devia competir à Música, antes de posta em arte?
Resta-nos o nome Concento; pelo qual (como já dissemos) se explica a regular ordem, que há entre voz grave, e aguda, contemperadas segundo as proporções harmônicas, para deleitar o sentido. Donde se segue que não pode haver perfeito Concento sem arte; ac per consequens que não podia este nome stricte sumpto convir à Música, antes de posta em arte. Este o meu parecer, salvo semper meliori.

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  1. Ceron. tom. 1. lib. 2. cap. 9, p. 214 https://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000015030 []
  2. Euriped. apud eumd. ibid.[]
  3. Virgil. Georgic. v. 145-146. In Cerone, p. 214 https://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000015030[]
  4. Theognid. apud. Ceron. ub. paut. supra. p. 214 https://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000015030[]
  5. Richard de S. Victor. part. 1. tr.. except. lib. 2. cap. 5. https://books.google.com.br/books?id=ruQnJqKJOC8C&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false col. 10 / ver tradução aqui: https://www.bing.com/ck/a?!&&p=d9ebabe77c1713237af756ef98e15acff8859e5c23b904f06302a590f24216b4JmltdHM9MTc0MDQ0MTYwMA&ptn=3&ver=2&hsh=4&fclid=0659657e-6014-6761-3015-71a261456622&psq=richard+de+saint+victor+Theorica+Ignorantiam+expellens%2c+Sapientiam+illuminat&u=a1aHR0cHM6Ly9wZXJpb2RpY29zLnVmcGVsLmVkdS5ici9pbmRleC5waHAvZGlzc2VydGF0aW8vYXJ0aWNsZS9kb3dubG9hZC8yMDIxNS8xMjczOQ&ntb=1 []
  6. Hug. de S. Victor. lib. 1. cap 12.[]
  7. Pontan. 4. de prudent. https://play.google.com/books/reader?id=WaQCPrVdZ7gC&pg=GBS.PP4&hl=pt&q=Institutiones []
  8. Marc. Cras. apud Cicer. 1. De Oratore. §187 https://mlat.uzh.ch/browser/12626:1 []
  9. Plat. in Gorg.[]
  10. Aristot. text. 19[]
  11. Senec. apud Ceron. tom. 1. lib. 2. cap. 9.[]
  12. Pythagor. apud eumd. ibid.[]
  13. Aver. 2. Physic. com. 77[]
  14. Plat. lib. 2. in Alcibiad.[]
  15. Roset. in sua Mus. Lorent. Porq. dela Mus. lib. 1. cap. 18. Ceron. tom. 1. Lib. 2. cap. 18.[]
  16. Virgil. Aeneid. 1.[]
  17. Calep. verbo cano. https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n135/mode/2up?q=cano []
  18. Durant. Rat Div. Offic. lib. 1. cap. 2.[]
  19. Stephanus. Vanneus. Recanetum de Musica Aurea lib. 1. cap. 7. p. 8 https://archive.org/details/bub_gb_g_h1onpvWXwC/page/n25/mode/2up []
  20. Andr. Meyning. Lib. 1. cap. 1. []
  21. Fr. Angel. in sua Mus. lib. 2. cap. 14.[]
  22. Kirch. Mussurg. univers. tom. 1. lib. 2. cap. 3.[]
  23. Ibid.[]
  24. Boet. lib. 5. suae. Mus. cap. 24.[]
  25. Fior Angel. lib. 1. cap. 10.[]
  26. Nicol. Burt. tr.1. cap. 6.[]
  27. Berard. Miscellan. Musical. Part. 1. cap. 5, Zarlin. Instit. harm. part. 1. cap. 11, Ceron. tom. 1. lib.2. cap. 11.[]
  28. Guid. in. Prolog. ad libr. 3. Michol.[]
  29. Franch. Mus. theoric. lib. 1 cap. 5. https://chmtl.indiana.edu/tml/15th/GAFTM1 []
  30. Ibid[]
  31. Roset. Compend. Mus.[]
  32. Ioan. Pap. 22. lib. 1. suae Mus. cap. 2.[]
  33. Roset. apud Lorent. Porq. de la Mus. Lib. 1. cap. 48.[]
  34. Calip. verbo Monodia. https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n519/mode/2up?q=monodia []
  35. Roset. supra. ??? apud Ceron. to. 1, lib. 2. cap. 26.[]
  36. Calep. verbo Symphonia. https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n805/mode/2up?q=symphonia []
  37. Anglic.[]
  38. Roset. supra.[]
  39. Lorent. Porq. de la Mus. Lib. 1. cap. 48.[]
  40. Calep. verbo Harmonia. https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n375/mode/2up?q=harmonia []
  41. Anglic. Lib. 19. cap. 132.[]
  42. Hog. apud eumd.[]
  43. Calep. ubi supra. https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n375/mode/2up?q=harmonia []
  44. Id. verbo Melos https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n501/mode/2up?q=melos []
  45. Ceron. tom. 1. lib. 2. cap. 26[]
  46. Plat. in. Gorg.[]
  47. Lorent. supra. Ceron. tom. 1.lib. 2. cap. 26[]
  48. Calep. verbo Modulor, Modus, et Modulus https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n515/mode/2up?q=modus https://archive.org/details/bub_gb_v-JKAAAAcAAJ/page/n517/mode/2up?q=modulus []
  49. Plat. apud Barrad. Preceyt. Ecclesiast. part. 1. preceyt. 4[]
  50. Cic. de Somn. Scipion.[]
  51. Senec. ep. 83.[]
  52. Virgil. Georg. lib. 1.[]
  53. Kirch. Musurg. Univer. tom. 1.lib. 7. part. 1. Erotem. 3. p. 551. https://s9.imslp.org/files/imglnks/usimg/c/c4/IMSLP253538-PMLP410795-athanasiikircherkirc_musurgia_1.7.pdf []
  54. Apud. Ceron. tom. 1. lib. 2. cap. 26. p. 237. https://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000015030 []
  55. Franch. lib. 3. De Harm. Instrum. cap. 10. f. LXXXI https://play.google.com/books/reader?id=y8ZCAAAAcAAJ&pg=GBS.PR80-IA1&hl=pt []
  56. Id. lib. 1. cap. 3. f. V https://play.google.com/books/reader?id=y8ZCAAAAcAAJ&pg=GBS.PR4-IA1&hl=pt []
  57. Zarlin. Demonstrat. harm. ragionam. 2. definit. 4. https://tmiweb.science.uu.nl/text/reading-edition/zardim89.html#rag2 []
  58. Ceron. supra.[]