Artículo III.
Da virtude, e poder, que tem a Música para mover o irracional, sensível, e insensível.
§. I.
Da virtude, que tem a Música para mover os brutos, e as aves.
M. É tão poderosa a natural virtude da Música, que com a suavidade de sua doçura até o irracional sujeita ao seu império, como já em outro lugar deixamos por dito de Cassaneo 1: Musicae disciplina non solum homines, verum etiam bruta animalia demulcet. Franquino 2 diz que os cervos ao som da flauta, pelo deleite que sentem, facilmente se deixam apanhar. Dos elefantes pela mesma causa diz Estrabon 3 que com Música se amansam, e que as ovelhas com a melodia da fístula pastoril se regozijam. S. Isidoro 4 com Oroncio Fineo diz que os cavalos ao som da trombeta se embravecem. Marciano Capella 5, Macedo, e outros referem que os cisnes em ouvindo cantar, se deixam ir atrás da Música, para onde os querem levar. De outras muitas avezinhas nos mostra a experiência que se alegram com a harmonia do canto, e com o som da flauta, ou silvos baixam, e se deixam cair na rede, como já bem o advertiu Catám 6:
[p. 31] Fistula Dulce canit, voluerem dum decipit anceps.
Ao som da flauta que soa
Enganosa, o passarinho
De ser livre no raminho
A ser prisioneiro voa.
Por muito se podia ter o que de si costumava Orfeu dizer 7, e é que por mais que os Imperadores o convidavam aos seus banquetes pelo muito que o seu canto os deleitava, muito mais se deleitava ele de os mover ao que queria; pois de irados os fazia mansos, de tristes alegres, e de timoratos audazes: Imperatores ad convivia me invitant, ut ex me se delectent: ego tamen delector exipsis, cum quo possim, velim ânimos eorum flectere de ira ad mansuetudinem, de tristitia ad laetitiam, de timore ad audaciam. Por muito se podia isto ter, torno a dizer: mas muito pouco parece, quando a fereza dos versos, dos leões, e das mais feras dizem muitos 8 que só se domesticava com o canto do dito Orfeu, cuja suave voz atrás de si levava, e fazia esquecer dos pastos os rebanhos famintos. Cresce ainda a admiração, quando se diz 9 que até as árvores, e pedras insensíveis o seguiam: e (o que mais é) o mesmo inferno a seu canto se rendia tanto, que, como pasmados, se suspendiam, e paravam os suplícios dos condenados: Orpheus non hominum tantum aures, sed etiam ferarum, et voluerum, quod que magis mireris, surdas etiam arbores, lapides, saxa, et flumina traxit: quin ipsi quoque in feri abe jus pendebant cantu, et impiorum supplicia, quase stupefacta, cessabant. O mesmo testificou também Horácio 10.
Tu potes tigres, comites que sylvas
Ducere, et rivos celere morari:
Cessit immanis tibi blandienti
Janitor aulae
Tu dos tigres a fereza
Podes cantando domar,
Mover bosques, e estorvar
Dos rios a correnteza.
Assim o crê com certeza,
Divino Orfeu excelente,
Quem vê que tão prontamente
O mesmo inferno implacável
Para ver a prenda amável
Te põem a porta patente.
Enfim foi tão poderosa a Música de Orfeu, que ao som da doce lira pôde atrair, e tirar do inferno a Eurídice, sua mulher, como refere Ovídio 11, e toca Horácio nos citados versos. E se vos parecer encarecimento poético o que de Orfeu vos tenho referido; nem por isso deveis negar à sua Música o encômio de poderosa, entendendo com Eusébio Cesariense 12, Natal Comite, e outros, que cita o P. Vitória, por árvores, e pedras os homens agrestes, que pelos campos, e bosques habitavam nas cavernas dos penhascos à maneira de feras: por leões, e ursos os homens facinorosos, e indômitos: por feras em comum aqueles, que por qualquer medo viviam [p. 32] incultos, e ferozes: e por rios finalmente os homens precipitados, que sem desvio corriam à rédea solta atrás das suas paixões, e vícios: aos quais todos teve poder a Música de Orfeu para os domesticar, e sujeitar à vida civil, e leis comuns, que é o em que consiste a essência de uma cidade, conforme a define Platão 13: Civitas est habitatio multorum hominum, qui communibus legibus utuntur. E porque nem a isto, nem ao mais, que intentou, se lhe opor nunca dificuldade, que, por árdua, e grande que fosse, logo com a suavidade do seu canto não vencesse; por isso tiveram os Poetas lugar para fabularem que ao seu canto até o mesmo inferno se rendeu. Assim parece que o chegou a conhecer, e o confessou o mesmo Horácio 14:
Sylvestres homines sacer, interpresque Deorum
Caedibus, et victu faedo deterruit Orpheus :
Dictus ab hoc Lenire tigres, rabidos que Leones.
O mesmo disse, e compreendeu em verso vulgar um poeta espanhol 15:
Desto tuvo principio, y argumento
Dizir que Orpheo con su voz mudava
Los arboles, y peñas de su asiento,
Mostrando que los versos, que cantava,
Fuerça tenían de mudar de intento
Los pechos fieros, a quien amansava.
§. II.
Da virtude, que tem a Música para deleitar, e atrair os peixes
M. Também os peixes se deixam cativar, e vencer da melodia, como diz Bartholomeo Anglico 16: Serpentes, volucres, atque Delphines Musica provocat ad auditum: e de muitos se diz 17 que arrebatados da suavidade da Música, acodem, e concorrem para onde se canta. Assim o confirma o caso de Arion, que navegando de Itália para Corinto, e vendo que os marinheiros pelo seu cabedal (grangeado pela Música) o queriam matar, pediu um pequeno prazo para antes da sua morte cantar uma letra. Concedeu-se-lhe: sentou-se na popa da nau, começou a cantar, acudiram os peixes, e lançando-se ao mar, hum delfim o tomou sobre suas costas, e o levou à terra a salvamento. Assim com muitos outros o refere D. Pedro Cerone 18, e é constante entre todos os Autores.
Nem este caso parecerá apócrifo a quem ler a Magia do P. Gaspar Escotto 19; o qual ( em confirmação de que os delfins ouvem Música, e com ela se deleitam) diz que com seus olhos viu outro quase semelhante caso> e foi, que no ano de 1633, navegando de Nápoles para Sicília, depois de seis dias de próspera viagem, avistando ao 7º. a cidade de Messana, e começando ele, e seus companheiros a cantar em ação de graças o Hino Te Deum Laudamus, e as Ladainhas de Nossa Senhora em seu louvor, logo em continente acudiram os delfins ao redor da pequena embarcação, saltando em alto fora da água em sinal de seu prazer; e continuando assim por muito longo espaço, sem [p. 33] jamais cessarem, nem se apartarem, senão depois que o dito Padre, e seus companheiros acabaram de cantar.
Não é menos admirável o que refere, também com testemunha de vista, o P. Kircher 20, da captura, ou pescatura do peixe Psyphia, vulgarmente chamado peixe espada no mar Mamertino de Sicília em certos tempos do ano, e principalmente no mês de maio. Diz que naqueles tempos, ou naquele mês de se embarcam de madrugada os pescadores destros, e peritos em um saveiro, ou semelhante embarcação, e partem para o dito mar, e dele para uma parte, ou braço particular, chamado Pharo. Chegando ali, vai logo para o lugar da proa não qualquer dos pescadores, mas deles o mais robusto, e experiente, e ali se põem armado de uma fisga, ou arpão. Começa logo outro a cantar certas palavras, cuja Música apenas ouvida, acodem sem mais demora à riba da água os ditos peixes, como dela conduzidos, e deleitavelmente atraídos, e ali com suma indústria (dada a ocasião) os arpoa o pescador da proa, para isso aparelhado. As palavras, que entoam ali os pescadores para a captura destes peixes, são estas.
Mamarsu de paianu
Palletu di paianu
Maiassu stignela
Palletu di paenu palé
La stagnela
Mancata stignela
Pro nastu, vardu pressu da visu, e da terra.
Estas palavras diz o doutíssimo Padre 21 que tinham muitos por fingidas, outros por supersticiosas; e que também ele na mesma estimação as teve, até que com vagarosa ponderação as conheceu exemptas de toda a superstição. Ele as traz da mesma sorte, que aqui as escrevemos, e diz que as aprendera dos mesmos pescadores, a quem por curiosidade acompanhou uma vez ao mar, e foi no dia 17 de maio de 1638, achando-se então em Messana. Parece que basta isto para prova de que os peixes se deleitam e deixam vencer da Música. E se a verdade do citado Padre não dá lugar à dúvida, menos a poderá ter, quem souber daquele outro peixe de extremada grandeza, chamado Manati, de quem diz S. Pedro Mártir 22 que todas as vezes que era chamado pelo nome Martinho entoado em canto, subia à riba da água a comer das mãos dos passageiros. O mesmo repetem vários Autores 23 de um delfim, que se apresentava a um mancebo todas as vezes que o invocava entoando-lhe o nome de Simão.
§. III.
Da virtude, que tem a Música para mover até o irracional.
M. Até para mover, e atrair o irracional tem a Música virtude. Por isso de Amphion se diz que movia as pedras com o seu canto; e que com a doçura, e suavidade da sua voz edificara os muros de Tebas muito a seu arbítrio; pois ao som dela o seguiam as pedras, e ele as acomodava, onde [p. 34] queria. Esta em suma a fábula: cujas palavras recomenda Julio Solino 24 que se não entendam literal, e materialmente; senão que Amphion com a suavidade de sua voz (como já de Orfeu dissemos) reprimia, e refreava os homens, que como rios se precipitavam, em cóleras e demasias: e aos que sem cultura, como toscas pedras, viviam nas brenhas, os reduzia com a doçura da sua voz a buscar a vida política, e civil, vindo povoar a cidade: Non quod lyra saxa duxerit (neque enim par est id ita gestum videri) sed quod affatus suavitate homines rupium incolas, et incultis moribus rudes, ad obsequii civilis pellexerit disciplinam. Dele se lembrou Horácio 25 nos seguintes versos.
Dictus et Amphion, Thebanae conditor arcis,
Saxa movere sono testudinis, et prece blanda
Ducere quo vellet.
Ao som da lira cantando
Amphion as pedras movia,
E seus muros fabricando,
As locava onde queria;
Porque nada resistia
Do canto ao império brando.
O Poeta Pacífico 26 também fez menção deste excelente Músico, e juntamente dos outros dois já referidos, Orfeu, e Arion, nestes dois dísticos:
Orpheus Eurydicem cithara revocavit ab Orco
Ex que suis movit saxa, nemusque jugis.
Pisce fuit pelagus per longum vectus Arion :
Hac etiam Amphion moenia struxit ope.
Com a mão destra Orfeu tocando
Sua doce, e suave lira,
Do inferno a Eurídice tira,
Bosque, e penhas arrancando.
Arion se salva cantando
Em um delfim que o ouvia:
E Amphion com melodia
Seus muros edificava;
Que quando bem se cantava,
Tudo ao canto se rendia.
Da Música de Silene afirma da mesma sorte o Mantuano 27 que movia também não só aos Faunos, e feras, senão juntamente as árvores.
Tum vero in numerum Faunosque ferasque videres
Ludere, tum rígidas motare cacumina quercus.
Então (se bem advertia)
Era bem para notar
O que (em chegando a cantar)
[p. 35] De Sileno a voz fazia.
Faunos, e feras movia
A dançar com graça tal,
Que (trocado o natural)
Já não parecem agrestes;
Quando também os ciprestes
Movia compasso igual.
Mas para que não digais que só com as mentiras dos Poetas vos provo esta matéria, ouvi finalmente esta verdade, que conta Polisto 28, Aristóteles, e outros, e é muito para admirar, de uma fonte, que há na região Halesina: a qual por mais quieta, e sossegada que esteja, se junto a ela se toca alguma cítara, flauta, ou outro Músico instrumento, começa logo a desassossegar-se, pulando, e saltando, como se estivera fervendo: e se param os instrumentos, de improviso sossega ela também. Não pode chegar a mais o poder, e virtude excelente da Música; pois como tendes visto, a seu império tudo sujeita, o racional, e o irracional; o sensível, e o insensível. Mas nem por isso julgueis que tenho dito muito, pois apenas vos tenho referido a porção mais limitada, e diminuta, que dos seus encômios, excelências, e virtudes se pode dizer.
D. E tende por certo que, sendo a Música por si mesma tão nobre, e tão excelente, muito me admiro de ver a pouca estimação, que hoje aqui logra.
M. Pois lamentai-lhe comigo essa desgraça, em que a chegou a pôr ou a malícia, ou a ignorância dos homens, como avisa o douto Macedo 29, e de que diremos agora alguma coisa também nós.
§. IV.
De como a malícia, e a ignorância dos homens foram a causa dos abates da Música.
M. Foi a malícia dos homens a causa dos abates; e grande queda da Música, porque abusando da sai altíssima nobreza, e dignidade, se serviram dela para fins indignos, e menos honestos, com que muito a depravaram: e contra estes depravadores da Música, principalmente contra os que dela usaram, e usam para profanidades, e lascívias, escreveram acerrimamente S. Cypriano 30, e S. Efrém. O Papa S. Clemente Alexandrino 31 também condena o imoderado, e lascivo uso da Música. Por isso não obra hoje a Música os prodígios, que obrava em outro tempo; como quem se mostra ofendida (ou Deus por ela) do vilipêndio, em que a puseram, e põem cada vez mais os homens com tão profanas, e inhonestas intenções; sendo ela uma ciência (sobre a mais útil aos homens) tão admirável, e virtuosa, que por tal, só ela, e nenhuma outra, teve merecimento, e poder de entrar na Igreja de Seus para os seus sagrados cultos, e louvores, como já disse o venerável Beda 32: Musicae utilitas magna est, et admirabilis, et virtuosa valdi, quae fores Ecclesiae ausa est subintrare; nulla enim scientia ausa est intrare fores Ecclesiae. Mas oh malícia dos homens! que vibrando inimizades contra a virtude, e [p. 36] dignidade da Música, e do mesmo Deus, que unicamente devia com ela ser louvado em seus sagrados templos, destes a arrastou para o século: e tendo a Música estimações de sagrada, como a apelida Juliano 33: Sacra Musica, a profanou a malícia dos homens, introduzindo-a até nos lupanares.
Foi também a ignorância urgente causa do grande abate da Música, da qual disse Cassaneo 34 que por isso não tinha hoje a estimação e honra, que já teve e ter devia, porque os homens a ignoram, e não conhecem o que ela é: Quia ignari sunt hujus scientiae, ideo non est honore, quem ad modum fuit, et esse deberet. E disse bem; porque, como pergunta S. Gregório Papa 35, quem pode estimar, querer, ou amar o que ignora, e não conhece? Quis enim amare valeat, quod ignorat? De sorte que para a vontade amar, estimar, ou querer alguma coisa, primeiro a há de o entendimento conhecer, como é também comum prolóquio entre os Filósofos: Nihil volitum, quin praecognitum. Logo quem não conhece a dignidade da Música; quem não sabe que é toda Divina, e tanto do agrado de Deus, como é possível que a estime, deseje, ou queira aprender? Quem ignora os fins, para que por Deus foi dada aos homens, e introduzida no mundo, como há de saber usar dela sempre, e só para fins honestos? Se os Mestres que a ensinam, por ignorância, ou descuido não dão dela verdadeiro conhecimento aos seus Discípulos, como não hão de ficar estes sempre ignorando as excelências, e talvez os fundamentos da mesma ciência, que professam? E se isto de uns em outros Discípulos sempre assim for, como foi continuando (pois é coisa natural, como diz Platão 36, ir passando a doutrina de uns aos outros conforme cada um a aprende de seu Mestre: Doctrina naturaliter procedit de homine ad hominem secundum operationes, quas habet Doctor ad discipulum, como não há de cada vez mais crescer a ignorância da Música? Se não sabem conhecer os Músicos as proporções, que com o corpo humano tem a Música, e a eleição, que dos Tons, ou Modos devem fazer conforme a natural eficácia, que tem mais um do que outro, para produzir mais este, que aquele efeito, como há de a Música hoje obrar as suas antigas maravilhas? E (por concluir de uma vez) se os mesmos seus professores com estas, e outras muitas ignorâncias, diversamente procedendo, abatem, e dão ocasião para ser desestimada a Música, como querem que a estimem aqueles, que tem maior razão de a ignorar?
Oh como se revezaram os tempos! Antigamente se tinha com a Música o maior cuidado: hoje tem com ela os homens o maior descuido. Hoje se desestimam na nossa terra os homens, por serem Músicos: antigamente sabemos que logravam os homens, por Músicos, as maiores honras. Grande era David, e tão honrado, como Rei: e contudo não deslustrou o real caráter por exercitar publicamente a Música diante da Arca de Deus 37: David autem, et omnis Israel ludebant coram Domine in omnibus lignis fabre factis, et citharis, et listris, et tympanis, et sistris: hoje com muito menos honra (e talvez com nenhuma) se envergonham, e desprezam os homens de exercitar a Música diante do Deus da Arca?
Contra isso (bem sei) me poderá alguém opor que Micol, filha de Saul (e só Micol) estranhou muito esta ação da David, seu marido, levando-lha tanto a mal, que o increpou de ignobilidade, e charrice, tendo por tal o obrar ele assim, descoberto diante das escravas dos seus [p. 37] servos 38: Quam gloriosus fuit hodie rex Israel, discoperiens se ante ancilas servorum suorum: et nudatus est, quasi si nudaretur unus de scurris. Mas que lhe respondeu Davi? Diante de Deus (notai bem) hei de dançar, e fazer-me ainda mais vil do que me fiz, ser humilda nos meus olhos, e por isso mesmo entre os meus servos, ou com as suas escravas, de quem falas, aparecerei mais glorioso 39: Ante Dominum… et ludam, et vilior fiam plusquam factus sum: et erro humilis in oculis meis: et cum ancillis, de quibus locuta es, gloriosior apparebo. E que sucedeu a Micol por esta estranheza, ou repreensão a Davi? Sabeis o que? ser castigada com a privação de prole daí até a sua morte 40: Igitur Michol, filiae Saul, non est natus filius usque in diem mortis suae. Tanto, como isto, valia antigamente a Música: e tudo chegaram os homens a perder pela sua malícia, e ignorância. Mas com isto carecia de maior ponderação, que não é para este lugar, demos pois já a narração por acabada, e vamos ao que mais nos importa.
D. Muito embora: mas não, enquanto me não declarardes; o que agora por curiosidade pretendo que me digais.
§. V.
Em que se declara a razão, porque o canto de uns incita outros a também cantar: e porque move a Música tão diversos afetos em diversos homens
D. Primeiramente tenho reparado, e desejo saber a razão, porque alguns ouvintes, em ouvindo cantar a outros, começam também eles logo (e ainda sem o imaginarem) a cantar, ou querer cantar? Deinde, porque razão em uns move a Música fetos de alegria, em outros de tristeza; a uns incita à ira, a outros à compaixão? Enfim, porque tão diversos afetos em diversos sujeitos, e ainda em um sujeito mesmo move a Música, conforme vos tenho ouvido?
M. A tudo vos satisfarei com o doutíssimo P. Gaspar Escotto da Companhia de Jesus 41. E respondendo já ao 1º. quesito, digo que o cantarem, ou quererem cantar uns, quando ouvem cantar a outros, é; porque com o canto destes se concitam naqueles os espíritos, e a alma se move a um afeto semelhante ao afeto do que canta.
Ao 2º. digo que a causa de mover a Música tão diversos afetos em diversos sujeitos, procede de serem diversos os espíritos, e a sua concitação também diversa. Daqui vem que se os espíritos são sutis, e cálidos, se incitam com a Música à movimentos soberbos, insolentes, e iracundos. Se são ainda mais sutis, e cálidos, incita os ânimos a amores, gostos, e afetos venéreos. Se são os espíritos constipados, e frios, ou menos cálidos, se movem facilmente à lágrimas, à devoção sensível, à continência, e outros patéticos afetos. E se finalmente são espíritos crassos, e ainda menos cálidos, como nos homens melancólicos, nenhum, ou apenas lhe moverá algum afeto a Música.
Daqui vem que na força da tristeza é para o triste a Música importuna; porque como então estão os espíritos, por causa da tristeza, como congelados, e incapazes de moção, ou concitação; por isso se lhe faz a Música molesta [p. 38] aos ouvidos; porque nenhum efeito pode causar ao que assim a ouve. Porém se este tal for Músico, que com a Música bem ordenada possa dissolver os espíritos assim condensados, certamente ainda na tristeza lhe há de agradar, e dar alívio a Música. O mesmo diz o P. Kircher 42; o qual (para que não ignoreis aqui que coisa é espírito) diz que é um certo sutilíssimo vapor sanguíneo, que é instrumento da alma: e porque este dito espírito é muito móvel, e tênue, facilmente se deixa mover pelo ar harmonicamente concitado: a qual concitação sentindo a alma, conforme é vário do espírito o movimento, assim induz ela também efeitos vários, e o pode fazer em um sujeito mesmo sucessivamente, conforme for também sucessiva a variedade da Música, e de seus tons: Spiritus enim hujus modi, (são as palavras do Padre) cum subtilissimus quidam sanguineus vapor sit admodum mobilis, ac tenuis, facile ab aere harmonice concitato incitatur, quam concitationem anima sentiens, pro varia spiritus incitatione, varios effectus quoque inducit.
Nos brutos torna a dizer o P. Escotto 43 que concorrem as mesmas razões, que no homem, para se deleitarem, e moverem com a Música, ainda que muito menos que o homem, por ter este os espíritos muito mais sutis, e móveis, e mais coleta a fantasia, donde lhe nasce a maior atenção. E daqui finalmente se conclui (como já acima dissemos) que tem a Música natural força, e império para mover os afetos, assim dos homens, como dos brutos: o que confessa também o P. Delrio 44. E pois tenho respondido, vamos já aos principais preceitos da Arte chamada por outro nome, e vulgarmente Escada, ou Mão Aretina.
[p. 39 em branco]
[p. 40 em branco]
[p. 41] Manus est brevis, et utilis cantus doctrina
Do canto a Mão Aretina
É breve, e útil doutrina

Disce manum tantum, si vis bene discere cantum:
Absque manu frustra disces per plurima lustra.
Se à Mão só vos aplicais,
Bem o canto sabereis:
Sem a Mão não podereis
saber, por mais que vivais.
[p. 42 em branco]
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- Cassan. in Catal. Glor. mund. part. 10. consid. 51.[↩]
- Franch. apud Lorent. Porq. de la Mus. lib. 1. cap. 13. not. 1.[↩]
- Strab. apud. Nassar. Escule. Mus. part. 1. lib. 1. cap. 1.[↩]
- D. Isid. Etym. lib. 3. cap. 6.[↩]
- Marcian. Capel. de Mus. cap.9; Maced. supr. num. 3.[↩]
- Cat. apud Lorent. ubi Paulo supra.[↩]
- Orph. apud Berard. Miscellan. Musical. part. 1. cap. 13.[↩]
- Plutarch. de prosp. fortun. Dial. 3; Fonc. Sylv. mor. supra ; [↩]
- Picinel. tom. 1. lib. 3. cap. 39. pag. mihi 165.[↩]
- Horat. lib. 3. Od. 11.[↩]
- Ovid. Metam. lib. 10.[↩]
- Euseb. Cesariens. Natal Comit. et alii apud Victor. Theatr. de los Dios. part. 1. lib. 5. cap. 12.[↩]
- Plat. apud Ceron. tom. 1. lib. 2. cap. 22.[↩]
- Horat. in Art.[↩]
- Apud Victor. Theatr. de los Dios. Paulo supra.[↩]
- Barthol. Anglic. lib. 19. cap. 132.[↩]
- Plin. Hystor. Natur. lib. 9. cap. 8.[↩]
- Ceron. tom. 1. lib. 1. cap. 55; Plin. supra.[↩]
- Schott. Mag. univers. part. 2. lib. 1. Syntag. 2 cap. 3.[↩]
- Kirch. Musurg. univers. tom. 2. lib. 9. cap. 7. part. 2. Mag. Conson. et disson.[↩]
- Ibid.[↩]
- D. Pedr. Mart. in lib. de reb. Americ.[↩]
- Apud Kirche rubi paulo supra.[↩]
- Jul. Solin. de admirabilib. mund. cap. 11.[↩]
- Horat. in Art.[↩]
- Pacif. apud Textor. in Officin. part. 2. tit. Citharaedi. [p. 105] https://archive.org/details/bub_gb_iN6EpWI9sWAC/page/n103/mode/2up[↩]
- Virg. Ecc. 6.[↩]
- Polist. cap. 11; Aristot. lib. de admirab.[↩]
- Maced. Eva e Av. part. 1. cap. 28. n. 9[↩]
- D. Cyprian. ep. 2; D. Ephr. tom. 1. in Psalm.[↩]
- D. Clem. Alexandr. apud A Lapid. in Eccli. cap. 32.[↩]
- Ven. Bed. tr. de Mus. cap. 22.[↩]
- Julian. ep. 56.[↩]
- Cassan. Catal. Glor. Mund. part. 10. consid. 51.[↩]
- D. Gregor. Pap. Homil. 26. in Evang.[↩]
- Plat. apud Ceron. tom. 1. lib. 1. cap. 10.[↩]
- 2. Reg. 6. 5.[↩]
- 2. Reg. 6. 20.[↩]
- 2. Reg. 6. 21. et 22.[↩]
- 2. Reg. 6. 23.[↩]
- Schot. Mag. univers. part. 2. lib. 4. cap. 2. in corolariis.[↩]
- Kirch. Musurg. Univers. tom. 2. lib. 9. part. 1. Mag. cons. et disson. cap. 2.[↩]
- Schot. supra.[↩]
- Martin Delrio, lib. 1. Disquisit. Magit. cap. 4. quaest. 2. §. In primis arbitror.[↩]