Artículo I
Da origem, nobreza e estimação da Música assim para com os homens, como para com Deus
§. 1
Da origem, e nobreza da Música
M. É a Música tão nobre, e preexcelsa, que chegou a gozar foros de Divina; epíteto, que (como já ouvistes) lhe deu S. Agostinho 1, e com que a apelidam muitos outros com Roberto de Fluctibus 2: Musica est scientia divina. Cassaneo 3 lhe dá por pátria o céu: Cujus origo caelestis memoratur. O mesmo, e pelas mesmas palavras diz Philippe Beroaldo 4 e Cassiodoro 5 notou que assim o significaram os Antigos, achando nas estrelas a forma da Lira. Nem podia ser que tão soberana ciência tivesse de outra parte, que do céu, o seu nascimento. Por isto erram vacilantes os homens, dando-lhe humanas origens, e atribuindo a sua invenção já a uns, já a outros homens 6; a muitos dos quais, porque mais nela se afamaram, levantaram estátuas públicas, como consta que fizeram os Lorenses a Eunômio 7, e os Thebanos a Cleon. De sorte que cada nação, ou cidade atribuía a invenção da música ao que ali a introduzia, ou a aumentava: de onde veio depois a escurecer-se de sorte a verdade da sua origem com a confusão de tantas opiniões, que tudo é variedade entre os autores.
Por isto fazem uns inventor da Música a Apolo, outros a Mercúrio 8. Uns dizem que foi Ísis entre os Egípcios, outros que Bardo entre os Celtas. Uns lhe dão por inventores a Orfeu, Museu e Tamiras entre os Traces; outros lhe dão a Lino entre os Tebanos. Uns atribuem esta glória a Aristófanes entre os Tarentinos 9, outros a Zeto e Amphion, filhos de Júpiter e Antiopa 10. Muitos se inclinam a muitas outras diversas opiniões, e outros dizem que a Pitágoras se deve a invenção da Música 11; pois notando a diversidade dos sons em uns martelos de um ferreiro, deles tirou o modo de proporcionar as vozes, e achar as consonâncias. (Não há dúvida que todos estes, e muitos outros foram como Deuses da Música entre os Antigos, porque muito o aumentaram, e fizeram florescer com a invenção de vários instrumentos, e perícia que neles tiveram. Apolo inventou [p. 4] a Lira 12, em que foram peritíssimos Órfeo, Arion, e Amphion, dos quais faz menção o poeta Pacífico 13 em uns versos, que a seu tempo vos referirei. De Lino, que também foi na Lira peritíssimo, se lembra Propércio 14 no seguinte verso:
Tunc ego sim Inachio notior arte Lino.
Pelo concento divino
Mais conhecido hei de ser,
Do que pode merecer
Pela sua arte ser Lino.
De Mercúrio refere Horácio 15 que foi inventor da Cítara de quatro cordas, como se vê destes versos.
Te canam magni Iovis, et Deorum
Nuntium, curvae que Lirae parentem.
A ti do grande Tonante
E Deuses embaixador,
Da curva Lira inventor,
Cantarei, Mercúrio, amante.
Depois outros lhe acrescentaram outras cordas, como se pode ver na oficina de Ravisio Textor 16, no P. Manuel Nunes, D. Pedro Cerone, e outros, que por brevidade não citamos.
Moisés por mandado de Deus 17 foi inventor da Trombeta: Fac tibi duas tubas argenteas e também o foi de alguns outros instrumentos no Egito e fora dele 18. Foi tão insigne Músico, que também lhe atribuíram a invenção da Música, e dele dizem que tomara o nome 19: e saindo do Egito com o povo de Israel, foi o primeiro que cantou, louvando a Deus pelo favor, e benefício de o haver livrado do exército do Faraó 20: Tunc cecinit Moyses etc. Por ser Moisés desta sorte não falta quem diga 21, ou a ele atribua o que se diz de Mercúrio, ou que ele fora o mesmo Mercúrio: e parece que com razão. Porque de Mercúrio se diz que foi inventor da Música: e Moisés certamente foi quem muito a aumentou. Mercúrio foi embaixador dos Deuses 22: Deorum nuntium: Moisés o foi do verdadeiro Deus. Mercúrio pintava-se com vara, e nela duas serpentes enroladas: Moisés também teve vara, que por permissão Divina no Egito se fez serpente 23: Tulit Aaron virgam coram Pharaone, et servis ejus, quae versa est in colobrum.
§. II
Continua-se a mesma matéria, e descobre-se finalmente a verdadeira origem da Música.
M. Logo depois do universal Dilúvio Camo, e Mesraimo, seu [p. 5] filho, entre os Egípcios foram os primeiros instauradores da Música, como afirma P. Kircher 24: Atvero post diluvium Aegyptii primi fuerunt perditae Musicae instauratores; hi enim à Chamo, et Mesraimo, filio ejus instructi Musicam in tantum instaurarunt etc. E o procedimento desta primeira instauração da Música diz no lugar citado o mesmo Padre 25 que veio das gaitinhas, que os Lavradores, e pastores formavam das canas ou juncos copiosamente nascidos nas Lagoas, ou Charcos, que ficavam das inundações, e enchentes do rio Nilo em seu recesso. Outros dizem que a Música se tomou do canto das aves, e lhe assignam por mestra a natureza. Enfim são nesta matéria infinitas as opiniões: mas deixando todas por falsas, e impertinentes, a verdadeira origem, e princípio da Música não é outro, senão Deus, que a comunicou aos homens para os enriquecer das suas qualidades 26. Prova-se com S. Agostinho 27, que lhe chama dom de Deus, que (como tal) o deu ao primeiro homem, para a exercitar, Louvando-o no Paraíso 28: Posuit eum in paradiso voluptatis, ut opera retur. Assim entendem muitos com Fr. Juan de La Cruz 29 o operaretur deste Texto.
E a razão é manifesta: porque como ainda então não tinha Adão perdido a graça, não tinha também ainda necessidade de ocupar-se, senão em Louvar a Deus, e agradecer-lhe o benefício da criação: e se nunca ele pecara, adverte um douto 30, sem embargo de que todas as mais ciências infundiu Deus ao homem no estado da inocência, de nenhuma parece que haveria necessidade de se usar no mundo, senão da Música. Por que todas as mais ciências foram inventadas para remédio de três males, que nos granjeou a culpa, a saber, ignorância, vício e enfermidade. Contra a ignorância diz Ricardo de S. Victor 31 que se formou a Teoria, que desterra a ignorância, e ilumina a sabedoria: contra o vício a Prática que exclui o vício e dá forças à virtude: e contra a enfermidade se formou a Mecânica, que acautelando a penúria, remedeia a necessidade e falta da presente vida: Theorica ignorantiam expellens, Sapientiam illuminat: Practica vitium excludens, virtutem roborat: Mechanica penuriam cavens, vitae praesentis defectum temperat. E como não havendo pecado, não haveria também governo Político, Ético, nem Econômico, que carecesse de ser regido por Teórica, Prática e Mecânica: claro está que, se Adão nunca pecara, nunca seria necessário que no mundo se usassem as mais ciências; e só seria necessário usar-se a Música, pois é para Louvar a Deus, que é coisa que sempre obriga, e então mais, pelo benefício da preservação.
Foi, pois, Adão o primeiro que cantou, como afirma Paraphrastes 32 em confirmação desta verdade: Primum cecinit Adam. E não tendo havido antes dele outro algum homem, de quem ele pudesse aprender, quem poderá duvidar que por Deus imediatamente lhe foi comunicada esta ciência? Por isso enfim é a Música tão Superior, e Divina, porque do mesmo Deus teve princípio, como já o asseverou Herman Finck 33: Deum ipsum Musicam tradidisse. E se desejais também saber quando e o que cantou Adão, diz Genebrardo 34 que cantou no mesmo dia, em que foi criado, e o que cantou, diz o Cantimpatense 35 que foi o Salmo 91 que começa: Bonum est confiteri Domine.
Depois de Adão, Seth seu filho, e seus netos, filhos deste, foram os primeiros que de Música escreveram em duas colunas, uma de Ladrilho, outra de pedra, ou metal 36; porque sabendo por profecia de Adão que haviam de vir ao [p. 6] mundo os dois dilúvios, de águas, e fogo, e ignorando qual seria primeiro, se o da água, que desfizesse o barro; ou se o de fogo, que derretesse o metal; a quiseram conservar com esta cautelosa prevenção , que Josepho Hebreo, e Pierio 37 atribuem ao mesmo Adão; e o Conego D. Angelo Berardi com Margarita Philosophica 38 a Jubal: Jubal primus Musicam invenit, et eam in duabus columnis, Lateritia scilicat, et Lapidea posteris reliquit: Lateritia quidem ne igne, Lapidea ne aqua periret. Mas parecia escusado; porque é a Música tão vinculada com a humana natureza, que se tirassem do mundo todos os homens, deixando só os meninos, diz o P. Athanasio Kircher 39 que estes naturalmente a tornariam a renovar, como o foram fazendo os homens na invenção dos instrumentos.
Seguiu-se Jubal, sexto neto de Adão, e filho de Lemeque, vivendo ainda Adão, como adverte o P. João da Fonseca 40, e claramente se entende da mesma Escritura 41. Este foi o primeiro que descobriu as proporções harmônicas no som de quatro martelos, que ouviu na oficina de seu irmão Tubal-Caim, primeiro inventor da ferraria 42: Sem embargo de que esta glória quiseram atribuir outros a Pitágoras 43, como adiante em seu lugar diremos com a opinião mais comum, ou mais seguida: mas ninguém nega que foi Jubal o primeiro que inventou o cantar ao som de instrumentos, pois o assevera a mesma Sagrada Escritura 44: Jubal ipse fuit pater canentium cithera, et organo.
Deste texto tomaram fundamentos alguns para atribuírem a Jubal a invenção da Música: mas o texto não diz isso; antes conforme Macedo 45 dá a entender que já havia Música, e que Jubal foi o primeiro, que com arte a acomodou a aqueles dois instrumentos, Harpa, e Órgão; porque foi ele o primeiro que descobriu as proporções harmônicas. Então sem mistério, adverte aqui o Cônego Berardi 46, teve a Música em Jubal este novo, e elegantíssimo princípio; porque começando de Deus, se acham oito gerações, ou produções até Jubal, que dá complemento à oitava: e é na Música a Oitava tão singular, e excelente consonância, e é de condição tal, que sempre nela o canto sobressai com belíssima nova gala, e como que toma novas forças, pois nela se repetem as excelências do Uníssono, como que ali de novo principia: que esta é a razão, porque muitos Autores 47 lhe chamam, não consonância , mas equissonância: Diapason non consonantia, sed aequisonantia. Diapason appellavit aequisonatiam.
Ora por curiosidade quero explicarvos os termos desta alegórica Oitava. Tem a Oitava, ou Diapasão nove vozes em oito pontos, e outras tantas produções; porque umas vozes se vão gerando, e produzindo de outras, exceto a primeira, a qual só produz, mas não é produzida: e estas nove vozes tem o Diapasão, ou Oitava, porque se compõem, ou divide em um Diapente, ou quinta que tem cinco; e um Diatessarão, ou quarta que tem quatro: e porque esta tem o seu princípio no mesmo signo, corda, e casa, em que tem o seu fim a Quinta, ocupando assim duas vozes uma só corda, e fazendo entre ambas um só ponto; por isso pode uma Oitava conter (como dissemos) nove vozes em oito pontos. Suposta, pois, esta necessária advertência.
Deus, essencialmente um, e único princípio de todas as coisas, é por isso mesmo desta Oitava ab aeterno o Uníssono. Criou em tempo a Adão, que é [p. 7] a primeira produção, comunicou-lhe esta com as mais Ciências, e foi Adão desta Oitava a voz segunda, que é voz, intervalo, ou espécie dissonante: por isso dissonou tanto na transgressão do preceito. Caim, seu filho, segunda produção fez a voz terceira. Enoque, terceira produção, por ser filho de Caim, e 1º neto de Adão, fez a voz quarta. Irad, quarta produção, por ser filho de Enoque, e 2º neto de Adão, fez a voz quinta, e completou o Diapente, 1º intervalo dos dois maiores, que em si contém, ou em que se divide a Oitava. Maviael, quinta produção, por ser filho de Irad, e 3º neto de Adão, fez a voz sexta, que é juntamente a 1ª do Diatessarão, 2º membro, em que a oitava se divide. Matusael, sexta produção, por ser filho de Maviael, e 4º neto de Adão, fez a voz sétima. Lameque, sétima produção, por ser filho de Matusael, e 5º neto de Adão, fez a voz Oitava. E Jubal finalmente, oitava produção, por ser filho de Lameque, e 6º neto de Adão, fez a voz nona, última, e completiva desta Oitava.
Por isso, pois, teve a música em Jubal, tão nova, e elegante gala, com que alegrou ao mundo na acomodação, e invenção de vários instrumentos: e a primeira que ao som deles cantou, como sua discipula 48, foi Noêmia, irmã de Tubal- Caim, cujo nome significa suavidade. Esta foi a origem, e esta a notícia, que da Música se teve antes do Dilúvio; depois do qual Noé, e seus filhos passaram dela o uso ao novo mundo, e se foram seguindo os mais, que por sua ordem traz o P. Manuel Nunes 49, onde os podeis ver, e nos Autores, que ele alega; que o novo intento não é demorar aqui o discurso com estas antiguidades. Portanto assim mostrada a origem, e nobreza da Música por seu altíssimo princípio; ouvi agora a sua estimação: e comecemos pela que lhe deram os homens, para acabarmos pela que dela mostrou sempre fazer o mesmo Deus.
§. III
Da estimação da Música entre os homens no Gentilismo.
M. Os Atenienses estimavam tanto a música, que costumavam eleger, e criar por Cabos dos seus exércitos, não o mais nobre, nem o mais rico, mas o mais douto em Música, e de melhor aptidão para mandar os soldados, como refere Berardi 50. Os Espartanos também a estimavam tanto, que com ela celebravam os feitos egrégios, e as ações, e virtudes mais heroicas 51. E os povos de Arcadia a prezavam de sorte, que era entre eles estabelecido por lei inviolável o atenderem e frequentarem a Música até a idade de trinta anos; não por delícia, e recreação; mas para poderem com ânimo alegre, e indefeso suportar as fadigas, e contrariedades, ou moléstias do corpo 52: onde teve o Poeta 53 fundamento para cantar:
Tristis at ille tamen cantabity Acades, inquit,
Montibus haec vestris: soli cantare periti Arcades.
Cantai (Cornélio 54 dizia
De um fero desdém ferido)
Povo de Arcadia instruído
Mais que todos na harmonia.
[p. 8] Cantai, cantai (repetia)
Só vós meu triste pesar:
Porque só vós, que em cantar
Tendes perícia tão alta,
Podeis aos montes sem falta
Meu mal cantando expressar?
Finalmente os Gregos todos faziam da Música tal estimação, que, segundo Calepino 55, davam aos Músicos a mesma graduação de Sábios, e Poetas: ou (para melhor dizer) identificavam estes três nomes, Músico, Sábio, Poeta: Haec apud Graecos tanti olim fuit, ut iidem Musici, et Vates, et Sapientes judicarentur. E era tanto, que entre eles não se permitia graduar-se algum Filósofo, e Mestre em Artes, sem primeiro saber Música, como afirma Estevão Roseto 56: Musica apud Graecos magno olim honore fuit; nec quis Liberaliter censebatur eruditus, qui Musicales cantus non calleret. E reparai, ou notai bem, que para o mérito daquele decoroso grau não bastava qualquer ciência medíocre, ou superficial da Música: era necessário que a soubessem radicalmente, e muito bem, como se exprime pelo verbo Calleret. Cassaneo no seu Catálogo 57 expressar o mesmo, e quase pelos mesmos termos, dizendo que era a música em toda a Grécia tão Louvada, e estimada, que nem o fidalgo, nem o erudito se reputava cabalmente tal, se não era juntamente na música perito: Musices Laus in omni Gracia quam máxima habebatur: nec quisquam satis egrius, satis que eruditus videri poterat, qui ejus modi disciplinae expers esset. No mesmo concorda o douto Petrarca 58, dizendo por diversos termos que era reputado por néscio (por mais que dotado fosse de outas prendas) o que era da Música ignorante: Apud illos quidem cantus, ac fidium ignarus, quisquis esset, indoctus habebatur.
Assim o experimentou Temístocles, famoso general de Atenas, que foi notado de ignorante, e pouco polido, porque em um sarau, a que fora convidado, dando-se-lhe uma Lira para tocar, respondeu que não sabia 59: Cujus Scienciae cum se imperitum Temistocles confessus esset, indoctior habitus est. O mesmo aconteceu a Cimon, também Ateniense, e muito ilustre, que lhe não valeram as Liberalidades, com que havia granjeado a graça dos Cidadãos, para deixar de ser notado da mesma falta 60. Mas não sucedeu assim a Epaminondas, Príncipe de Tebas, que foi coroado de todo o aplauso por excelente Músico 61. Enfim era comum proverbio entre os Gregos que os néscios não professavam a ciência Música: Indoctos a Musicis abesse: donde talvez tomou Platão 62 fundamento para dizer que a Música não nasceu para Loucos, e ignorantes: Data est Musica non ad rationis expertes. Por isso naquele tempo não havia quem se atrevesse a viver sem saber Música; por mais que muito soubesse outras ciências: ou porque com esta mais se enobrecia, ou porque nesta (como diz o mesmo Platão 63, Joseph Lourenço Lucensi, e Micael Psello) se compreendem todas as ciências: Musica enim omnes comprehendit scientias. E daqui veio chamarem a Música Encyclopédia, que é o mesmo que ciência universal, ou circular, que compreende, e abraça todas as mais ciências, como com o mesmo Platão refere Roseto 64: Hanc veteres Encyclopediam dixere, in qua omnes sunt [p. 9] comprehensae disciplinae.
§. IV.
Continua-se a mesma matéria.
M. Esta referida verdade conheceu o velho Sólon: e com ser ele um dos sete sábios da Grécia, famoso Legislador dos Atenienses, achou que ainda para ser perfeitamente sábio, lhe faltava saber a Música; e não se desprezou naquela idade de aprender a cantar com um seu neto 65: respondendo aos que disto o increpavam, que era para não morrer, sem a consolação de saber Música: Ut, post quam Musicam dedicero, moriar. Da mesma sorte Sócrates, sendo tão sábio, começou a aprender a cantar, ou tocar a Lira, depois de velho, tendo de idade mais de 70 anos 66. Donde tomaram motivo os seus amigos para o repreenderem com esta assaz injuriosa pergunta: Não tendes vergonha, Sócrates, de aprender a Música tão velho, sendo estudo só próprio de meninos? Nunquid non verceundaris in senectute his operam dare studiis? Ele lhes respondeu, como Sócrates, que maior vergonha era na velhice ignorá-la, que na velhice aprendê-la: Majorem verecundiam esse in senectute existere ignorantem, quam in senectute studere. Faltava-lhe ainda este pontinho de perfeição para merecer também de si aquele dito de Platão 67, que só é, e se deve chamar Músico, aquilo que é, ou está perfeito.
O mesmo Platão 68, e com ele Aristóteles, conhecendo a utilidade da Música, e o poder que tem, para mover os ânimos, e introduzir os bons costumes, recomenda muito o ensino dela aos meninos em seus primeiros, e mais tenros anos, como melhor vos constará destas suas palavras, que agora aqui vos repito: Nonne princeps, et primaria illa musica educativo, quae in modulorum, concentuumque rationibus versatur efficacissime in ipsa animae interiora influit, et venustate quadam animum vehementissimum tangit, eumque adeo venustatis decore afficit, si in ea acurate elaboret, ut a teneris annis instituatur? E mais claro em outro lugar 69: Musica potest animi morem aliquem facere, et hac de causa ad Puerorum disciplinam est adhibenda, et in ea pueri sunt constituendi.
Plutarco 70 recomenda muito o ensino de todas as Artes liberais aos meninos nobres, e que estes todos aprendam, e saibam muito bem: Non debet permissi, ut ingenuus puer ulla in arte exiis, quae liberales dicuntur, hospes, aut peregrinus sit: e não obstante o incluir-se também entre elas a Música, desta faz expressa, e especial menção 71, dizendo que a primeira coisa, que mostravam antigamente os Gregos, e a seus filhos mandavam ensinar, quando rapazes capazes de aprender, era a Música; na qual queriam que primeiro que tudo fossem instruídos, porque por meio dela esperavam que compostos, e refreados os ânimos de seus filhos, viriam estes a conseguir depois uma vida em tudo modesta, e moderada: Veterem illam Graeciam Studium, operam que rerum omnium mérito impedisse maximam, ut in primis adolescentes Musica erudirentur. Eorum enim animos molles, ac teneros ad modestiam, atque moderationem Musica compositi, ac temperati existimabant. Aristóteles 72, outra vez da mesma sorte, ou quase pelos mesmos termos, que Platão, seu Mestre, acima citado, não só aprova este documento; mas acrescenta que conduz muito para a virtude, [p. 10] e que portanto nela devem ser os meninos instruídos: Ex his igitur patet, quod Musica potest animi morem aliquem facere. Quod si hoc potest Musica, clarum est quod ad Puerorum disciplinam est adhibenda, et in ea pueri sunt instruendi. E diz em outro lugar 73 que deve a Música ser (como é) contada entre as Artes ilustres, e Liberais, que são as sete, que se compreendem neste verso.
Língua, Tropus, Ratio, Numerus, Tonus, Angulus, Astra
Gramática Retórica Filosofia Aritmética Música Geometria Astrologia.
Celio Rhodiginae 74 e com ele o P. Victória diz que por mais que o grande legislador Licurgo estreitou aos Lacedemônios as suas Largas Leis, cortando-lhes muitos divertimentos, não só lhes não tirou o da Música, mas muito lho aprovou, e recomendou; ou pelas utilidades, que dela se colhem; ou porque na opinião do mesmo Licurgo ela é natural ao homem. E esta naturalidade, que com o homem tem a Música, manifestamente se declara com o que se vê nos povos de Tunquino, de quem diz o P. Gio Philippo a Companhia de Jesus, referido pelo cônego D. Angelo Berardi 75 que lhes é tão natural a Música, que neles é uma mesma e quase indistinta coisa o falar, e o cantar; porque como se nascessem com o órgão bem temperado no bofe, e tivesse na língua o Mestre da Capela, não proferem palavra, que em proferindo-a se não forme o canto: Quella gente (diz o Padre) come se nascesse con l’organo ben accordato ne polmoni, et havesse il Mastro di capella su a lingua, non forma voci, che, in proferondole, altre si non forme il canto, et adessi una cosa il parlare, et il cantare.
Conhecida, pois, a nobreza da Música, e este nexo natural, que com o homem tem, com razão foi por isso tão estimada de tantos grandes, que por tantos modos a acreditaram. Aquiles, Epaminondas, Alexandre, Scylla, Catão, Cenorino, os Imperadores Tito, Adriano, e Alexandre Severo a honraram com a muita perícia, e destreza, que nela tiveram, de tanger, e cantar 76. Obraram como entendidos, e não se enganaram; porque, como afirma Juliano 77, se alguma ciência é digna de ser estudada, e tratada pelos grandes do mundo, e da Igreja, é entre todas a Música, que ele intitula sagrada: Siqua res studio nostro digna est, ejus modi sacra Musica videtur. E nem por serem Príncipes, e Imperadores, julgaram que lhes serviria de abate este exercício; porque seguiram a sentença daqueles dois versos Iâmbicos, tão celebrados entre os gregos:
Regium nihil Rege in illae, qui Camaenas negligit:
Conjucta regne maxima est res Musica.
Nada Régio um Rei terá,
Que as Musas não aplaudir:
Se ao Reino a Música unir,
Máxima coisa será.
Outros a ilustraram com excelentes pagas, honras e créditos, que deram aos professores peritos, que a exercitavam. Marco Antônio pagou a Anaxenores com os tributos de quatro cidades; Galba enriqueceu a Cano, e Vespasiano a Diodoro 78. Os Atenienses faziam tanto apreço da Música de [p. 11] Amaseo, e era Músico tão famoso, que todas as vezes que em público saía ao teatro a tanger, e cantar, lhe davam seiscentos escudos, como refere Atheneo 79. Daqui veio talvez dizerem os Juristas 80 que aos músicos que servem, não se deve salário, se o não estipulam; por ser serviço de gosto inestimável.
§. V.
Da estimação da música entre os homens no cristianismo.
M. Mas nem só da Gentilidade foi estimada a Música, nem só dos antigos Filósofos recomendada para a boa educação dos meninos; porque também entre os Católicos não faltaram Grandes, que muito a prezaram, e Santos Doutores, que a persuadiram. Ludovico Vivaldo 81 diz que o Teólogo, que se houver de graduar em Teologia, deve saber Música: Magistrandus in Theologia Musicam debet scire. S. Isidoro 82 a recomenda muito para a boa educação dos meninos nobres, e a canoniza perfeição de todas as ciências, dizendo que sem ela nenhuma há, que possa ser perfeita: Sine Musica nulla disciplina potest esse perfecta. A razão dá o P. Manuel Nunes 83, dizendo que as mais ciências tanto tem de perfeitas, quanto tem de Música. Beyerlinch 84 tem a Música por meio eficazmente necessário para se poderem saber bem as mais Artes Liberais: Liberalibus ergo percipiendis artibus sine controvérsia Musices necessária cognitio est. E tornando ao Doutor S. Isidoro 85, foi dela tão amante, e conheceu de sorte a sua perfeição, e nobreza, que chegou a por em igual grau de enormidade, e torpeza a ignorância das letras, que o da Música; dizendo que: Tam turpe est Musicam nescire, quam Literas: tão torpe, e abominável coisa é no homem o não saber Música, como não saber letras.
Não se entende ser menos o amor, e estimação em que S. Agostinho tinha a música; pois além de outros testemunhos, todos sabem que escreveu dela seis livros; e a louva com elogios tão altos 86, como é notório. E se havemos de estar pelo seu santo conselho, quatro cousas diz ele 87 que estão obrigados a saber muito bem os Sacerdotes, sob pena de não terem de Sacerdotes mais que o nome; e são estas, Gramática, Direito Canônico, Aritmética e Música. Gramática, para expor a palavra de Deus: Direito Canônico, para discernir os direitos Eclesiásticos: Cômputo, conta, ou Aritmética, para achar as festas mudáveis: e Música para cantar os Louvores de Deus: Sacerdotes Quatuor scire tenentur, alioquin vix in eis nomen Scerdotis constabit; et sun hoc, Grammatica, Jus Canonicum, Compotus, et Musica. Grammatica, ad verba Dei exponenda; Jus Canonicum, ad jura Ecclesiastica discernenda; Computus ad festa mobília invenienda; et Musica ad Laudes Dei cantandas.
S. Severino Boécio escreveu de música cinco livros 88. S. Alberto Magno 89, que nesta Faculdade foi doutíssimo, o comentou. Cassiodoro escreveu de música 90. O venerável Beda 91, Ricardo de S. Victor 92, os Papas João XXI. e João XXII. e inumeráveis outros também de Música escreveram 93. S. Vitaliano Papa considerou o Canto Romano com órgão 94. S. Bernardo escreveu uma arte de canto chão 95, e amou tanto esta ciência, [p. 12] que tomou por empresa de suas armas uma Harpa com esta Letra: Quid erit in Patria? querendo significar que se tanto deleita a Música na terra, quanto mais deleitará no céu? O Doutor da Igreja S. Ambrósio fazia da Música tal estimação, e gosto 96, que introduziu o seu canto na Igreja Mediolanense; e engrandecendo-a muito, dá muitos louvores aos que a exercitam. O Doutor Máximo, S. Jerônimo 97, e Origenes foram nela peritíssimos. O Santo Papa Leão II. foi na Música ciente com tanta vantagem, que reformou, e reduziu na Igreja de Deus o canto à melhor forma, como o declara a sua Lenda 98: Leo secundus, Pontifex Maximus, Siculus, humanis, et Divinis Literis Graece, et Latini doctus, Musicis etiam eruditus fuit; ipse enim sacros Hymnos, et Psalmos in Ecclesia ad concentum meliorem reduxit.
Que diremos do grande Patriarca S. Bento, tão antecipado nos amores, e estimações da Música, que não sofrendo nem as demoras do tempo, nem as leis da natureza, cantou 99, quando ainda encerrado no claustro maternal? Já isto parece que foi presságio dos maiores aumentos, que da sua Religião Monástica havia de ter depois a Música; primeiro por S. Gregório Magno, que (além do que ao princípio já fica referido) no ano de Cristo 600. pouco mais, ou menos, fez um Cantochão para as Igrejas, inventando a cantar-se pelas sete primeiras Letras do Alfabeto Latino 100; e este foi o que reformou depois o Papa S. Leão II. 101 pelos anos de 682. ou 683. Ordenou que se cantasse na Música o Introito, os Kyries, e Aleluia. Foi autor de quatro Tons, a que chamam Laterais, ou Colaterais. Edificou alguns colégios, assinando-lhes grossas rendas para a sustentação, e conservação dos meninos, que neles assistiam aprendendo, e exercitando o Canto: onde ele mesmo em pessoa tinha por divertimento, e recreação o explicar-lhes do Canto as maiores dificuldade, e os segredos mais recônditos. Renovou o Seminário, ou colégio, chamado: Schola cantorum: Escola dos Cantores: e estes iam daí a cantar, onde o dito Papa S. Gregório ia celebrar 102.
Por todos estes tempos se usou da Música sem regra certa, infalível, e universal para todos: até que Guido Arentino, também Monge de S. Bento, Abade de S. Laufredo, ou do ermo de Santa Cruz de Avellana, que viveu pelos anos de 1030 no Pontificado de João XIX 103. então, como quer Ilhescas 104, ou antes, como querem outros 105, a pôr em Arte, achando as vozes no hino: Ut queant Laxis: composto pelo Cardeal Paulo Diácono, filho da mesma família de S. Bento. Todos estes, e muitos outros, que, por não enfastiar-vos, não refiro, com palavras, e obras nos persuadem muito a Música, para nos fazerem dignos daquele Louvor, que pelo Eclesiástico 106 se dá aos que se esmeram a saber perfeitamente, e em buscar com perícia as mais acordes cadencias de suas modulações: Laudemus viros gloriosos … in peritia sua requerentes modos musicos. A Complutense lê: Requirentes melodias musicorum: A Tegorina: Qui concentos musicos intestigaverunt.
Além destes, infinitos foram os Grandes, Imperadores, e Monarcas, que estimaram muito a Música, e foram nela peritíssimos. S. Efrem erigiu na sua Igreja o Canto de Órgão 107. S. Francisco de Borja, sendo ainda Duque 108, teve nela suma destreza, e compunha com energia tanta, que de todos eram bem aceitas, e logo conhecidas as suas obras. O glorioso senhor [p. 13] Rey D. Manuel, Monarca da coroa Lusitana, foi muito amante da música 109: e buscava com grandes salários os melhores Músicos. Outros muitos se poderiam referir, senão quiséssemos evitar prolixidade: mas para encher o Lugar de todos, entre aqui o Sereníssimo Senhor Rey D. João IV. que ainda que não cantava, era na Música tão eminente, que as composições, que com nome suposto comunicava ao mundo, por superiores, as conheciam logo por suas em toda a Europa. Com despesa considerável, e muito particulares diligências (diz Macedo 110, como testemunha, que em muitas delas o serviu) ajuntou uma numerosa livraria das mais seletas, e esquisitas obras, e a tinha disposta com maravilhosa curiosidade, e distinção. Sendo contínuo nos conselhos, e despachos dos negócios, todos os dias, depois de jantar, tomava uma hora de alívio, e era este, ensinar, e exercitar os seus Músicos, que os tinha muito escolhidos; e quase sempre em canto dos Ofícios Divinos, para que fosse em tudo louvável o seu exercício.
São palavras do autor referido: o qual (para que se veja a estimação, que da Música fazia este Monarca) diz mais acima no número 11. do mesmo capítulo que por seus Embaixadores, e outros ministros fez por toda a Europa exatíssimas diligências por descobrir a Arte, ou livro, que de Música escreveu Guido: até que descobrindo-se na Livraria da Rainha de Suécia, ela lho mandou de mimo, dizem que o mesmo original. Donde veio o entenderem alguns que se não imprimiu. Concedemos que se não imprimisse pelos anos de 1024. como quer o P. Pedro Thalesio 111: porque ainda então não havia impressão: mas não pelos de 1442 em que havia principiado a Tipografia, ou Arte de imprimir 112. Nem (quanto a mim) se faz crível que assim ficasse em esquecimento (por não se dar ao prelo) obra tão nova, tão grade, tão singular e tão útil.
Mas para que são exemplos antigos, se de presente se vê a Música na corte da Monarquia Lusitana tão enobrecida, e aumentada do sempre magnífico, e memorável Senhor Rei D. João V do nome, que com profusíssimas dispensas de sua Real Fazenda a fez chegar ao auge, em que nunca esteve, conduzindo de reinos estranhos a uns, e mandando fora de sua corte a outros para a aprenderem com os Mestres de melhor nome, fazendo a todos (com muitas honras) partidos, e côngruas dignas só da sua Liberalidade incomparável? Quis assim imitar ao Santo David, que, depois de Rey, mostrou fazer da Música tal estimação, que para os Louvores de Deus instituiu com grandes despesas, e côngruas anuais quatro mil Cantores, a quem presidiam por Mestres principais Asaf, Heman, e Etan 113. Mas oh, que não quis ficar atrás nesta grandeza inacessível seu digníssimo filho reinante, nosso Senhor, D. José o 1º do nome 114, como nesta corte do Brasil nos testificam as cotidianas notícias, que por sabidas, se faz escusada a sua narração e agora passaremos com a estimação da Música do humano para o Divino; porque depois do nosso Monarca, não tem lugar outro humano.
§. VI.
Da estimação, que da música mostrou sempre fazer o mesmo Deus.
[p. 14] M. Tal é a estimação, que da música faz o mesmo Deus, que a escolheu para ordinário, e comum exercício dos Anjos, e Bem-aventurados no Templo da Glória. É testemunha disto o Sagrado Evangelista S. João 115, que no seu Apocalipse nos certifica que os ouviu cantar diante do trono de Deus: Cantabant quase canticum novum ante sedem Dei. E este canto entende o Angélico Doutor S. Thomas 116 que foi formado com verdadeiras vozes. Nem só então, mas também em outras ocasiões se ouviram cantar os Anjos, como sabemos que o fizeram no nascimento do Divino Verbo encarnado, anunciando glória a Deus, e paz aos homens 117: Facta est cum Angelo multitudo militiae caelestis Laudantium Deum, et dicentium: Gloria in excelsis Deo, et in terra pax hominibus: e no glorioso trânsito da sempre Virgem Maria, em que pelos Santos Apóstolos foram vistos, e ouvidos, como afirma S. João Damasceno 118: Cumque illii essent, eis visio apparuit Angelica, et audita est psalmodia caelestium Potestatum: e todos juntos cantando 119: Cum Angelica, et Apostolica hymnodia: Levaram o sagrado corpo a sepultar-se no Horto de Getsêmani, onde pelos mesmos anjos foi celebrado com suavíssimos cantos três dias contínuos 120: Quo in loco Angelorum cantus mansit tres dies continuos. Ora isto parece que bastava para se entender o muito que Deus, Senhor nosso, estima a Música: mas para maior exação, referiremos alguns casos, dos quais também se conheça que muito estima, e quer que também os homens a exercitem.
O glorioso S. Inácio Mártir, 3º bispo de Antióquia na Síria depois do Apóstolo S. Pedro, sendo uma vez arrebatado em espírito, quis Deus nosso Senhor que visse, e ouvisse, como lhe cantavam os anjos Antífonas, e Hinos; como quem lhe dava a entender que assim queria que lhe cantassem também os homens. Donde o Santo Bispo logo instituiu a cantarem-se as Antífonas antes, e depois dos Salmos, e juntamente os Hinos na Igreja de Antióquia, que serviu de exemplo às mais igrejas todas 121: Ignatius Antiochio Syriae, tertius post Apostolum Petrum Episcopus, vidit Angelorum visionem, quomodo Antiphonas Santae Trinitati dicebant, et hymnos; is que modum visionis Antiochenae tradisse probatur Ecclesiae, et ex hac ad cunctas Ecclesias. Não falta quem diga 122 que o mesmo S. Inácio Mártir foi o que introduziu o cantar reciprocamente a coros, porque isso mesmo aprendeu da referida visão: mas isso estava já esquecido entre os Gregos, e S. Ambrósio o renovou, passando da Igreja Grega para a Latina este uso, que nela introduziu 123: Ambrosius Episcopus ritum canendi Antiphonas in Ecclesia primus ad Latinos transtulit a Graecis, apud quos hic ritus jam inoleverat ex instituto Sancti Ignatii Antiocheni Episcopi.
Na vida de S. Coleta, religiosa de S. Francisco, refere o Prado espiritual 124 que reformando ela alguns conventos das suas Religiosas, esteve em dúvida, se estabeleceria neles o Ofício Divino rezado, ou se entoado em canto. Teve sobre isto oração, e ouviu uma voz muito destra em Música cantando o Ofício Divino com grande melodia: do que entendeu a Santa que queria Deus aquele canto do Ofício Divino, que ela com efeito tratou logo de estabelecer nos seus conventos.
Na mesma vida de S. Coleta 125 se conta que achando ela em [p. 15] um dos seus conventos a uma Religiosa, que havia muitos não ia ao coro por causa de uma grande enfermidade, do que vivia muito desconsolada: Coleta, como Prelada, lhe mandou em nome de Jesus Cristo que fosse aquela noite ao coro à Matinas, e fizesse o que pudesse. Foi enfim a Religiosa; e começando o Invitatório, cantou, como se estivera sã, e com voz muito mais clara, e sonora, do que antes estar enferma.
Na crônica de S. Francisco 126 se consta que, caminhando o Santo por um bosque junto com seu companheiro Fr. Leão, a tempo em que estavam para comer, começou a cantar um rouxinol. Deixou o Santo de comer para o ouvir; e rogou a Fr. Leão, que o ajudasse a cantar. Escusou-se ele, dizendo que não tinha voz para cantar à competência. Pelo que o Santo se pôs a cantar com o rouxinol, e o fizeram alternativamente, calando um, enquanto cantava o outro, à maneira de quando se cantam Salmos no coro. Finalmente o Santo, dando-se por vencido, disse a seu companheiro: Pois em Louvar a Deus nos vence nosso irmão rouxinol, demos alguma refeição ao corpo, para continuarmos o cominho. Há exemplos mais patente, ou demonstração mais clara?
D. Assim é; porque alternar dessa sorte com o Santo uma avezinha, como se tivera discurso, só por milagre, e disposição Divina parece que podia ser. Porém (com licença vossa) os sobreditos exemplos só demostram agradar-se Deus, de que se canta na igreja o Ofício Divino a coros: e isto só respeita o Cantochão, e não o Canto de Órgão, que é o total objeto da minha afeição.
M. Tende mão; que se repararmos bem naquela Música, que acima dissemos, do Apocalipse de S. João, por ela muito bem se entende o Canto de Órgão; pois diz o mesmo citado evangelista 127 que se compunha de vozes, e instrumentos Músicos, quais são as Harpas, expressamente nomeadas nas suas seguintes palavras: Et vocem, quam audivi, sicut citharaedorum citharisanlium incitharis suis: e o Canto de Órgão não é outra coisa, senão o som, ou harmonia, que resulta de uma, ou muitas vozes naturais, e um, ou muitos instrumentos Músicos artificiais. Mas se ainda isto não basta, ou vos não satisfaz, ouvi agora outros exemplos, que com maior evidência declaram o Canto de Órgão.
De S. Darestano, Arcebispo de Cantuária, se conta 128 que costumava cantar, tocando uma Harpa, os Salmos de Davi com grande consolação sua, e dos que o ouviram. Sucedeu, pois, que em um dia largando a sua Harpa, ou pendurando-a em um torno, sem que alguém a tocasse, começou ela a soar, e com ela juntamente uma celestial voz, que cantava aquele verso do mesmo Davi 129: Exultabunt sancti in gloria, Lartabuntur in cubilibus suis: que quer dizer, saltaram de prazer os Santos na glória, e se alegraram em seus aposentos. Aqui bem claro se vê ser aquele exercício Canto de Órgão; pois usava cantar o Santo ao som da Harpa, que só é instrumento apto para o Canto de Órgão; e não frequentado, nem usado em Cantochão: e também se vê a gosto, e aceitação, que daquele Santo exercício do seu servo fazia o Senhor; pois com tão singular favor o quis incitar a ele para continuar, e a nós para o imitarmos.
O mesmo parece nos quis Deus mostrar com o seguinte exemplo de um Religioso. Andava este do mesmo modo cantando sempre Hinos, e Salmos 130; e em uma noite viu descer do céu sobre a sua cabeça uma capela de flores muito cheirosas. Caiu logo enfermo, e daí a pouco morreu: mas abrindo-se daí a quatorze anos a sua sepultura, respirou dela uma tão suave fragrância, que excedia ao jardim [p. 16] mais abundante das mais odoríferas flores. Galhardo estímulo temos aqui para nos movermos a exercitar honestamente a Música; pois tanta estimação mostra o nosso bom Deus fazer dela, e de quem santamente a exercita. Mas se ainda achais que é pouco, e quereis outros exemplos mais subidos, por onde melhor vos conste o quanto Deus estima a Música, e que os homens a exercitem; ouvi agora finalmente o que dizem (falando dos inventores desta Divina ciência) Ludovico Vivaldo, Cassaneo, Macedo, e outros 131.
§. VII
Continua-se a mesma matéria.
M. Dizem que o mesmo filho de Deus, Rei, e Senhor do Universo, Jesus Cristo, nosso Redentor, quis honrar a Música, sendo o primeiro, e principal Músico da Lei da Graça, que a exercitou, e ensinou aos sagrados Apóstolos. Assim expressamente o disse Ludovico Vivaldo 132: Et Christus Theologiae dux fuit peritissimus, et summus Magister omnium Musicantium. Nem se pode duvidar que soubesse ser consumadíssimo Músico aquele, de quem o Real, e Músico Profeta testifica que foi não só Músico, mas a mesma Música 133: Exsurge Psalterium, et cithara: elogio, que também lhe fez o melífluo Bernardo 134, chamando-lhe Música dos ouvidos, e do coração: Jesus in aure melos, in corde jubilus.
Os sagrados Evangelistas 135 declararam que depois da última ceia, antes de irem para o Horto de Getsêmani no Monte Oliveti, cantou o Divino Mestre com seus sagrados Discípulos um hino: Hymno dicto, exierunt in montem Olivarum. Digo Cantou, porque onde o texto diz Hymno dicto, lê em hebreu Hymno cantato. E por certo que se não fosse cantado, não seria hino; porque, como com muitos Expositores diz Fr. Diego Murilo, alegado por Fr. Pablo Nassare 136, esta palavra Hymno tem de si mesma o denotar canto, pois significa Louvor a Deus cantado. O cardeal D. João Bona da Congregação reformada de Cister 137 abona o mesmo, dizendo que louvor de Deus com canto se chama Hino: Laus Dei cum cântico hymnis dicitur. O mesmo, e pelas mesmas palavras diz Durando 138. S. Gregório Nazianzeno 139 tem o mesmo nestes versos.
Modulata Laus est hymnus, ut quidem arbitror:
Cum cantione Psalmus est psalmodia
Quando o Louvor é cantado
Hino se deve dizer:
Salmodia se há de entender
Salmo em música entoado.
S. Agostinho 140 com melhor expressão que todos diz que Hino é um canto que contém Louvor de Deus. De sorte que se o Louvor, que contém o canto, não é Louvor de Deus, não é Hino: como também não é Hino, se é Louvor, e louvor de Deus, porém sem canto: Hymni (diz o Santo Doutor) cantus sunt continentes Laudes Dei: Si sit Laus, et non sit Dei, non est hymnus: et si sit Laus, et Dei Laus, et non cantetur, non est hymnus. Daqui tira por [p. 17] conclusão o P. Kircher 141 que o Hino, para ser tal, deve conter estas três coisas, Louvor, e Louvor de Deus, e Louvor de Deus cantado: Oportet ergo, ut si sit hymnus, habeat haec tria, et Laudem, et Dei Laudem, et Dei Laudem et canticum. Logo (concluímos agora também nós) supostas como premissas, tão doutas inteligências, quem poderá duvidar que realmente cantou o Divino Mestre com seus sagrados discípulos depois da última ceia? De caminho (pois já sabeis que coisa é Hino) sabereis também que Salmo significa verso de Louvores Divinos, que se canta com instrumento: e isto se distingue, e difere de Cântico, que é o que sem instrumento se canta 142.
Da sempre virgem Maria, Mãe de Deus, e Senhora nossa, se afirma que foi doutíssima Cantora. Nem podia deixar de o ser; pois não podia faltar esta ciência, a quem soube ser escola de todas as artes boas, liberais, e nobres, como a apelida Veiga 143: Beata Virgo omnium artium bonarum, et ingenuarum gymnasium. O devoto Alberto Magno 144 testifica que a Senhora foi em sumo grau científica na Música: Effectum Musicae scientiae in summo habens. S. Agostinho 145, em testemunho da suavidade do seu canto, diz que este foi quem desfez, e do mundo apartou o pranto de Eva: Hevae planctum Mariae cantus exclusit. Foi esta soberana Senhora, e Sapientíssima Cantora a que cantou o novo Cântico da Encarnação do Divino Verbo no Saltério de dez cordas, id est, no suavíssimo Cântico do Magnificat, que tem dez versos, e o mesmo S. Agostinho 146 afirma que ela o cantou: Audite quomodo tympanistria nostra cantaverit; ait enim: Magnificat anima mea Dominum. Mas oh como cantaria bem, com tanta ciência, com tanto exercício desde menina (pois não faltam Autores graves 147 que asseveram que no Templo aprendeu a cantar Salmos) e com tão singular voz, como nos declara o Divino Esposo 148, quando a convida, ou lhe roga que lhe cante um pouco, que gosta de a ouvir, por ser grata, e suave a sua voz! Sonet vox tua in auribus meis, vox enim tua dulcis. E o Caldêo lê 149: Quoniam vox tua suavis.
Nem dos Sagrados Apóstolos se pode duvidar que soubessem bem cantar, tendo para isso primeiro a doutrina do Divino Mestre, e depois a da Senhora, que no mundo ficou para lhes fazer vezes de Mestra, como diz o Alapide 150: Ipsa doctrix fuit Apostolorum: e o testifica o Anjo, que o revelou a S. Brígida 151: Beatissima Virgo Maria in hoc mundo … remanere permissa est; erat enim Magistra Apostolorum. Eles foram os que no princípio da Igreja, instruídos com tão relevantes doutrinas, usaram de cantar Salmos, e Hinos. Por isso S Agostinho 152, a quem seguem muitos outros, diz que devemos cantar, e saber cantar; pois o Divino Mestre, e seus sagrados Discípulos em cantar Hinos, e Salmos nos deram utilíssimas doutrinas, exemplos, e preceitos para fazermos o mesmo: Sicut de Hymnis, et Psalmis canendis cum et ipsius Domini, et Apostolorum habeamus documenta, et exempla, et praecepta de hac retam utilia. Do mesmo nos avisa S. João Crisóstomo 153, dizendo que cantou o Senhor, para que, à sua imitação, cantássemos também nós: Hymnum cecinit, ut nos idem facicamus. Direis que aqui só vemos exemplos, mas nenhum preceito de cantarmos também nós, e sabermos cantar? Pois vede agora quantos para isso expressamente nos põem Deus em vários lugares da Sagrada Escritura.
§. VIII.
Dos preceitos, que de Deus temos todos
para cantar, e saber cantar; e continua
a mesma matéria da estimação.
[p. 18] M. Por Moisés, seu insigne Músico, nos manda Deus que lhe cantemos 154: Cantemus Domino, gloriose enim mafnificantus est. No Paralipomenon 155 nos manda cantar, e cantar com instrumentos, que isto significa propriamente o verbo Psallo; e isto em boa frase é Canto de Órgão: Cantate ei, et psallite ei. Pelo Arcanjo S. Rafael em Tobias 156 nos põem o mesmo preceito; porque querendo Tobias, e seu filho gratificar os recebidos favores ao dito Arcanjo, que por tal não conheciam; ele, dando-se então a conhecer, lhe declarou qual, e a quem devia ser a gratificação, dizendo-lhes que louvassem ao Senhor, e Deus do Céu: Benedicite Deum Caeli: e que o Louvassem, e confessassem em público, a vista, e em presença de todos os viventes 157: Et coram omnibus viventibus confitemini illi: como quem lhes dizia que não fossem, como uns certos presumidos, ou graves deste tempo, que (se sabem Música) envergonham-se de cantar nos Templos, e casas públicas de Deus: sendo o cantar Louvor de Deus; e sendo grande honra o Louvar a Deus, como disse o mesmo Arcanjo 158: Opera autem Dei revelare, et confiteri honorificum est. E que este Louvar, e confessar a Deus seja cantar, ninguém o duvidará, se atender às palavras, com que finalmente se despede o Arcanjo, e lhes repede o preceito 159: Ipsum benedicite, et cantate illi.
Pelo Eclesiástico 160 também nos manda Deus que lhe cantemos, e claramente nos recomenda o Canto de Órgão; pois diz que lhe cantemos com a nossa voz natural ao som de instrumentos Músicos, como são as Harpas: Confitemini illi in você Labiorum vestrorum, et in cantuis Labiorum, et in citharis. Por Isaias 161 nos põem o mesmo preceito de cantar: Cantate Domino, quoniam magnifice fecit: e em outra parte manda que lhe cantemos solfa nova, e que com ela o louve o mais remoto da terra 162: Cantate Domino canticum novum, Laus ejus ab extremis terrae. Também nos vem por Jeremias 163 o mesmo preceito: Cantate Domino, et Laudate Dominum.
Por Davi, como era Músico da Real câmera de Deus, por isso parece que gostou sua Suprema Majestade de nos dar por ele o maior número de preceitos, tão frequentes nos seus Salmos. No Salmo 95 164 nos manda, como em Isaias, que lhe cantemos Solfa nova: Cantate Domino canticum novum: e para que ninguém escapasse deste precito, o estendeu ao universo todo 165: Cantate Domino omnis terra. Da mesma sorte nos manda no Salmo 65 166: Jubilate Deo omnis terra. No Salmo 97 167 parece que claramente nos põem preceito de Canto de Órgão, pois nos manda cantar com vozes, e instrumentos: Psallite Domino in Cithara; in citara et você psalmi, in tubis ductilibus, et você tubae corneae. E para que ninguém cuide que satisfaçam preceito somente com cantar de qualquer sorte, nos manda no Salmo 46 168 que lhe cantemos com ciência, e perfeita Sabedoria do que cantamos: Psallite sapienter. O mesmo nos diz no Salmo 38 169: Bene psallite ei in vociferatione: onde entende S. Jeronimo 170 que ali Bene vale o mesmo que Erudite, id est com sabedoria, e perfeita inteligência: Erudite intelligens: e Cassiodoro 171 diz que [p. 19] não pode exercitar uma coisa sabiamente, quem dela não tem perfeita inteligência: Nemo sapienter facit, quod non intelligit.
Não são só os referidos, mas inumeráveis outros os preceitos, que na Sagrada Escritura temos, de cantar, e saber cantar: e de ser nela a Música tão celebrada, quanto por Deus recomendada, bem claro se manifesta, e muito mais se prova que é muito da sua estimação, e agrado. Tanto gosta dela, que pelo Eclesiástico 172 manda que ninguém a impeça: Non impedias Musicam. Estima tanto aos que sabem cantar, e cantam com verdadeira sabedoria, que já nesta vida os intitula bem-aventurados 173: Beatus populus, qui scit jubilationem. Assim sente de o Bispo Pictaviense S. Hilário 174. E se de caminho quereis saber porque se toma pela Música o vocábulo Jubilatio (o mesmo nome Jubilaeum) dizemos que é, porque se deriva de Jubal 175. De sorte que Jubal alegrou o mundo com a Música proporcionada, e com a invenção de novos instrumentos: e os nomes Jubilaeum, e Jubilatio por isso mesmo significam a alegria proferida por vozes externas 176 que propriamente não vem a ser outra coisa, senão Música. Finalmente faz Deus da Música, e dos que bem a exercitam tanto caso, que Mardoqueu, conhecendo isto, para o obrigar a livrar o povo de perecer às mãos dos inimigos, não lhe pede pelo povo, roga-lhe sim pelos Músicos, para que por eles todos os mais fossem salvos 177: Ne claudas ora te canentium.
Dos Gregos deixamos dito que veneravam tanto aos Músicos, que os equivocavam nas honras com os Sábios, e Poetas, sendo entre eles como sinonímicos os nomes Músico, Sábio, Poeta: mas muito mais os honra, e acredita a voz de Deus na Sagrada Escritura, quando os trata por Profetas, e com este decoroso nome os apelida. Ora vêde. Quando Samuel quis ungir a Saul em Rei, o mandou ir a um lugar, onde disse que lhe haviam de sair ao encontro os Profetas 178, querendo por este nome significar-lhe os Músicos, como se vê na versão Caldaica e o confirmam vários Autores 179. Repitamos, pois, as palavras da Escritura citada: Cum que ingressus fureis ibi urbem, obvium habebis gregem Prophetarum descendentem de excelso, et ante eos psalterium, et tympanum, et tibiam, et citharam ipsos que prophetantes. E no Paralipomenon 180 se diz que Quenanias, Príncipe dos Levitas, por ser muito ciente, presidia a profecia: Chonenias autem, Princeps Levitarum, prophetiae praeerat ad praecinendam melodiam; erat enim valde sapiens: e é o mesmo que dizer que presidia ao canto, ou era Mestre da Capela, como explica aqui o A Lapide 181, dizendo que os cantores se chamam Profetas; e que profetizar é o mesmo que cantar, e Louvar a Deus: Praeerat prophetiae. Id est, praescribebat cantoribus prophetias, quas canerent: cantores enim subinde vocantur prophetae, et prophetare idem est, quod canere, et Laudare Deum. E declarando o magistério, e presidência de Quenanias 182, diz que era de Música: Erat enim val de sapiens, id est, intelligens; hoc est, Musicae, et canendi pritissimus. Tales enim debent esse praeceptores.
§.IX.
Deve a Música exercitar-se com virtude,
e ensinar-se com sabedoria.
M. Não passo mais adiante; porque para formardes conceito da nobreza, que tem e estimações, que merece ter a Música, e seus professores, basta este pouco, que tendes ouvido. Bem sei que para se merecerem estas estimações, principalmente para com Deus, se há de regular a Música pelo compasso das boas obras, como pelo [p. 20] Profeta Rei 183 nos recomenda o mesmo Deus, quando nos manda que lhe cantemos pelo compasso da mão: Omnes gentes plaudite manibus. Porque pelas mãos se entendem as boas obras, e só com as boas obras faz boa consonância a Música nos ouvidos de Deus. Assim o declara S. Jerônimo 184 em S. Mateus: Manus, id est, opera non corporis utique, sed animar Lavandae sunt, ut fiat in illis verbum Dei: ou, como neste mesmo Lugar (explicando o Psallite manibus) diz Reynerio 185: Bonis operibus concordent manus cum Lingua, illae operentur, haec confiteatur. Bem sei que se hão de vestir de honestidade, e virtude tanto a Música, como os que a professam; que isso nos quer também o Senhor dizer, quando pelo Profeta Rei 186 nos manda que lhe cantemos bem, e com voz alta: Bene psallite ei in vociferatione; por que ali Bene, segundo S. Agostinho 187, não só significa a perícia da Música, que deve ter quem com ela Louva a Deus; senão também a honestidade, e virtude, de que o espírito deve andar ornado: e nestes termos vale ali tanto Bene, como Honeste, honesta e virtuosamente: Bene quidem, id est, artifiose; aut bene, id est, honeste. Bem o sei, torno a dizer: mas também sei que não estamos agora em tempo de tratar disso; porque nem eu estou constituído em magistério, nem vós em discipulato.
D. Se por outra causa, Senhor, e não calais, tempo virá, em que mo digais; porque à vista do que vos tenho ouvido, já estou totalmente resoluto a aprender, e saber esta ciência: e para a estudar com mais gosto, haveis de ter paciência, que convosco mesmo a hei de aprender. Portanto, para que cobre mais brios à vontade, quero (enquanto a tarde dura) que me digais alguma coisa das suas virtudes, e efeitos, conforme me insinuasteis ao princípio.
M. Muito digno de Louvor vos julgo, meu Menino, por tão galharda resolução: mas tenho que notar-vos, e muito estranhar-vos a escolha, ou eleição, que de mim fazeis para tão alta empresa; sendo tão limitado o meu talento, que me constitui indigno Atlante para tanto peso. Para ensinar, requer-se experimentada ciência; e não bastam os anos, se neles (para a notícia) faltou o exercício entre doutos. É necessária a frequente Lição dos Livros para reparo da ignorância: e por sobra desta, e falta daquela se me dificulta muito toda a resolução a qualquer dúvida. Enfim, como diz Rabano 188, é coisa muito perigosa meter-se alguém a ensinar sem todos os predicados, e requisitos, que o constituam digno de exercer com cabal satisfação o magistério: Periculosum est Magisterii pondus cum subire, qui non scientiae praesidio fultus, potens sit illud sufficere.
D. Não me parecia a mim que havia em vós tantas causas para o receio, quando estou vendo em cadeiras a outros, que mais julgava eu dos bancos serem dignos: e tão sóleos no falar de Música, quanto deviam ser prontos para ouvirem silenciosos as dificuldades, que ignoram, das mesmas matérias, que a torto, e a direito intrépidos afirmam, disputam, e resolvem. E assim não entendia eu até agora que havia na Música tantas, e tão grandes dificuldades, como me dais a entender: ou ao menos com a confiança de tantos se me facilitavam certamente todas.
M. Pois sabeis que é para mim a música um intricado Labirinto, no qual havendo de meter-me, temo (faltando-me o fio da douta especulação) não tornar a sair, como tornou Theseo. Nem sinto em a explicar menos dificuldade, do que tiveram os Antigos com o celebrado nó de Górdio.
Enquanto porém aos ignorantes, que se fazem mestres, digo que isso lhes provém de uma louca temeridade, e esta lhes nasce talvez das presunções [p. 21] vãs, de que se deixam apoderar; e que também eu serei tido por um deles, se sendo ainda discípulo imperfeito, quiser já granjear créditos de consumando Mestre. O certo é que a ignorância é a que faz aos homens ou presumidos, ou temerários. Por isso são tantos os que no tempo presente se atrevem a ensinar a Música; da qual bem podemos dizer o que já (posto que a outro intento) disse Abreo 189: Que sendo certo que ninguém se atreve a professar uma arte, que primeiro bem, e de raiz não aprendeu, só esta da Música (sendo assaz dificultosa) há homens tão temerários, que destituídos quase de toda a ciência, se atrevem não só a exercitá-la, senão também a ensina-la: Certe (diz o Padre) nullam artem audet quis profiteri, quam prius non comparaverit: solum difficilem artem hanc omni praesidio doctrinae destituti homines temerarii exercere audent.
D. Das vossas palavras bem entendo já, quanto é difícil a Música: mas, por escusar rodeios, para assentirdes aos meus desejos, basta que eu vos escolha para Mestre, e me sujeite à vossa doutrina, tendo por boa qualquer que me aplicardes; pois quando em vós haja defeitos no saber, todos para comigo se suprem com a boa opinião, que de vós faço, e sobra de vontade de com nenhum outro aprender, senão convosco.
M. Não basta só isso; porque para Mestre, e para a eleição deste, devem de mais a mais concorrer as condições, que talvez em outro lugar vos declararei: mas, por satisfazer à vossa vontade, já me resolvo a aceitar a empresa. Farei o que puder, e direi o que entender: mas antes que entremos com os preceitos da Arte, vamos já, e primeiro dizendo alguma coisa do muito que o poder da Música no mundo maravilhosamente tem obrado.
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- D. August. supr.[↩]
- Robert. De Fluctib. Tr. 2. Part. 2. Lib. 1. Cap. 1.[↩]
- Cassan. Catal. Glor. Mund. Part. 1u. consid. 51.[↩]
- Beroald. Crat. M Horat.[↩]
- Cassiod. Lib. 2. Cap. 40.[↩]
- Maced. Eva e Av. Part. 1. cap. 23. Num. 9.[↩]
- Text. In Officin. Tit. Citharaedi; Cassan. Supr. Vers. Anaxeneri, el vers. Eunomius.[↩]
- Diodr. Lib. 1.[↩]
- Ceron. Tom. 1. Lib. 2. Cap. 17; Lorent. Porq. De la Mús. Lib. 1. Cap. 2; Victor Theatr. De los Dios. Part. 1. Lib. 5. Cap. 20;[↩]
- Plin. Lib. 7. Cap. 3[↩]
- Boet. Lib. 1. Sua Mus. Cap. 10; Kirch. Musurg. Univers. Tom. 1. Lib. 2. Cap. 1. Erotem. 1. §. 1; Schot. Mathem. Part. 2. Lib. 9. Cap. 3. §. 3; Plin. Lib. 5. Histor. Natur; Zarlin. Instit. Harm. Part. 1. Cap. 1.[↩]
- Horat. In Art.[↩]
- Pacific. Apud Textor. In Officin. Part. 2. Tit. Citharaedi.[↩]
- Propert. Lib. 2.[↩]
- Horat. Ode 10.[↩]
- Text. supra; Man. Nun. Art. Min. tr. das Explan. na 2. num. 22.[↩]
- Ceron. tom. 1. lib. 2. cap. 31; Num. 10. 2.[↩]
- Man. Nun. supra, sed num. 23.[↩]
- Agric. Christian. Dial. 16. §. 37.[↩]
- Exod. 15. 1.[↩]
- Eupolem. apud Vian. Prolog. à trad. de Ovid. Metam.[↩]
- Horat. supra[↩]
- Exod. 7. 10.[↩]
- Kirch. Musurg. univers. tom. 1. lib. 2. cap. 1.[↩]
- Ibid.[↩]
- Maced. supra.[↩]
- D. August. ep. 28.[↩]
- Gen. 2. 15.[↩]
- Fr. Juan de la Cruz diálogo. de las cerem. part. 3, apud Man. Nam supr. num. 21.[↩]
- Man. Nun. Art. Min. tr. das Explan. na 1. num. 1.[↩]
- Richard de S. Victor. part. 1. tract. except. lib. 2. cap. 5.[↩]
- Paraghr. apud Petr. de Figueyro tom. 1. in Psalm. 7. 7.[↩]
- Herman. Finck apud Berard. Miscelan. Musical. part. 2. Cap. 5[↩]
- Genebr. apud Nassar. Escuel. Mus, part. 1. Lib. 1 cap. 1;[↩]
- Cantimprat. apud eumd. ibid.[↩]
- Genebr. in Chronograp. lib. 1. apud Man. Nun. tr. das Explan. na 2. num. 1.[↩]
- Joseph. de antiq. Jud. cap. 4. Pier. Hieroglif.[↩]
- Margar. Philosoph. apud Berard. Miscelan. Musical. part. 1. cap. 6.[↩]
- Kirch. Musurg. univers. tom. 1. lib. 2. cap. 1.[↩]
- Fonc. SyIv. mor. Centur. 5. §. 5[↩]
- Gen. 4. 21 et 25.[↩]
- Man. Num. supr. na Explan. 2. n. 21.[↩]
- Moy. Arithmet. Lib. 5. cap. 5. art. 2; Schot. Matemat. part. 2. lib. 9. cap. 3. §. 3; Boet. lib. 1. sua Mus. cap. 10. [↩]
- Gen. Supra.[↩]
- Maced. Eva e Av. part. 1. cap. 23. num. 1.[↩]
- Berard. Miscelan. Musical. part. 1. cap. 6.[↩]
- Ven. Bed. fol. 408. Ptolom. Lib. 1. cap. 7. Nassar. Escuel. Mus. part. 1. lib. 2. cap. 11.[↩]
- Monarq. Lusitan. tom. 1. cap. 1.[↩]
- Man. Nun. supra.[↩]
- Berard. Miscelan. Musical. part. 1. cap. 8.[↩]
- Ibid.[↩]
- Ibid.[↩]
- Virgil. in Buccol. Egl. 40.[↩]
- Cornelio Gallo Poeta, em cuja pessoa fala aqui Virgílio.[↩]
- Calep: verbo Musica.[↩]
- Roset. Compend. Mus. part. 1.[↩]
- Cassan. Catal. Glor. Mund. part. 10. consid. 51.[↩]
- Petrarch. De rem. Lib. 1. dial. 3.[↩]
- Cic. Lib. 1. Tusculan.[↩]
- Tiraq. de nobil. cap. 34. num. 12.[↩]
- Plutarch. in vita Cimon.[↩]
- Plat. in Tim. [↩]
- Id. et Lucens. lit. M. Michael Psel. apud Barrad. Flor. Music in princ.[↩]
- Plat. et Roset. apud Lorent. Porq. de la Mus. lib. 1. cap. 3; Ceron. tom. 1. lib. 1. cap. 57[↩]
- AElian. de var. histor, fone. Sylv. Mor. centun. 5. §. 5. Maced. Eva et Av. part. 1. cap. 23. n. 15[↩]
- Cic. Lib.1 Tuscul. Valer. Max. lib. 8. cap. 7. de Stud. et industr.[↩]
- Plat. lib.5. Alcibiad. apud. Maced. supra.[↩]
- Id.et Aristot. 3. De Leg.[↩]
- Id. Plat. Polit. 8.[↩]
- Plutarch. lib de instit. Liber.[↩]
- Id. in sua Mus.[↩]
- Aristot. de. Rep. lib. 8. cap. 4. et 5.[↩]
- Id. In lib. Polit.[↩]
- Rhodi lib. 5. lect. antiq. apud Victor. Theatr. de los Dioses, part. 1. lib. 5. cap. 20.[↩]
- Gio Philip. apud Berard. Miscelan. Musical. part. 1. cap. 8.[↩]
- Maced. supra.[↩]
- Julian. ep. 56.[↩]
- Maced. ubi supr. num. 13.[↩]
- Athen. apud Berard, Miscellan. Musical. part. 1. cap. 11.[↩]
- Gratian. disciple. 6. retis. cap. 185. n. 39 ; Barbos. ad Ordin. Portug. Lib. 4. tit. 31. §. 5. num. 2[↩]
- Ludov. Vivald. persecut. 10.[↩]
- D. Isid. lib. 3. cap. 6. apud Berard. Flor. Music. in princ.[↩]
- Man. Num. Art. min. tr. das Explan. na 1. n. 1.[↩]
- Beyerl: tom. 5. fol. 539.[↩]
- D. Isid. Etym. lib. 3. cap. 15.[↩]
- D. August. lib. 17. De civit. cap. 14.[↩]
- Id. apud. Ceron. tom. 1. lib. 1. cap. 9.[↩]
- Boet. Oper. Sest. apud Man. Num. tr. das Explan. na 2. num. 25.[↩]
- D. Hieron. in Catal. Scriptor. Ecclesiast.; Fr. Anton. de Sen. in vit. Sanct. Patr. Ord. Praedicat.[↩]
- Cassiod. variar. lib.2. epist. 45.[↩]
- Belarm. de Script. Eccles.[↩]
- Richard. part. 1. Lib. 7. Cap. 10.[↩]
- Man. Num. Art. Min. das Explan. na 2. num. 24.[↩]
- Fr. Jos.de Jer. Mar. Acad. singul. lib. 10. cap. 3. pag. mihi 531[↩]
- Ibid.[↩]
- D. Ambros. in Psalm. 118. apud. Fonc. supra.[↩]
- D. Hier. supra.[↩]
- Breviar. Rom. Die 28. Januarii.[↩]
- Fr. Leão de S. Thom. na Benedict. Lusit. part. 1. tr. 1. cap. 3.[↩]
- Orat. Tigrin. Compend. de Music. lib. 1. cap. 44.[↩]
- Maced. Eva e Av. part. 1. cap. 23. n. 11. [↩]
- Berard. Miscellan. Musical. part. 1. cap. 4.[↩]
- Fr. Leão de S. Thom. na Benedict. Lusit. part. 5. tr. 1. cap. 10. §. 2.[↩]
- Ilhesc. na Hist. Pontific. part. 1. lib. 4. cap. 1. et. 16. et lib. 5. cap. 6.[↩]
- Joan. Baessier. Floscul. Histor. an. 1024.[↩]
- Eccli. 44. 1. et 5.[↩]
- Fr. Jos. de Jes. Mar. Academ. singul. cap. 3. pag. mihi 591.[↩]
- Fonc. Sylv. Mor. centur. 5. §. 5.[↩]
- Damião de Goes na Chron. de El Rey. D. Man. part. 4. cap. 84.[↩]
- Maced. supra, num. 15.[↩]
- Thales. cap. 1.[↩]
- Polid. Virg. lib. 2. cap. 7. Sylv. de. var. lic. ; Pedr. Mer. part. 3. cap. 3.[↩]
- Paral. 15. 16. et. 25[↩]
- Declarou à XXX das três Ordens Militares que o exercício da Música não era mecânica que houvesse mister dispensada os Músicos tomarem o hábito das xxx Ordens, xxx. tem honrado com ela. [↩]
- Apocal. 14. 3. Ibid. 15. 2.[↩]
- D. Thom. in 2. sent. dist. 2. quaest. 4. art. 2.[↩]
- Luc. 2. 13. et. 14[↩]
- D. Joan. Damasc. Orat. 2.de dormit. Dcip.[↩]
- Ibid.[↩]
- Ibid.[↩]
- Valaf. de reb. Eccl. cap. 25. apud Berard. Miscellan. Musical. part. 1. cap. 4.[↩]
- Fonc. Sylv. Mor. supra; Man. Nun. Art. Min. tr. das Explan. na 2. num. 25.[↩]
- Sigib. in Chron. cap. 12.[↩]
- Prad. espirit. lib. 6. cap. 4.[↩]
- Ibid.[↩]
- Chron. de S. Franc. lib. 2. cap. 29.[↩]
- Apoc. 14. 2[↩]
- Sur. tom. 3. in vita.[↩]
- Psalm. 149. 5.[↩]
- D. Gregor. lib. 4. Dial. Cap. 4.[↩]
- Cassan. in Catal. Glor. Mund. consid. 51. vers. sed ut Semel. Maced. supr. n. 15. Man. Nun. supra et alii.[↩]
- Ludov. Vivald. tr. de persec. Eccl. Persec. 10[↩]
- Psal. 107. 3.[↩]
- D. Bern. sup. cant. serm. 15.[↩]
- Malth. 26. 30. Marc. 14. 26.[↩]
- Fr. Dieg. Murill. apud. Nassar. Escuel. Mun. part. 1. lib. 1. cap. 1.[↩]
- Bon. Divin. Psal. mod. cap. 16.[↩]
- Durand. lib. 5. cap. 2. num. 23.[↩]
- D. Gregor. Nazianz. apud. Kircher. Musurg. univers. tom. 1. lib. 7. cap. 3.[↩]
- D. August. apud eumd. ibid.[↩]
- Kirch. Musurg. univers. tom. 1. lib. 7. cap. 3.[↩]
- Maced. Eva e Av. part. 1. cap. 23. numer. 15.[↩]
- Veyg. in Thcolonar. Pales. tr. 14. num. 1054.[↩]
- Albert. Magn. super Minus est. cap. 143.[↩]
- D. August. Serm. 18 de Sanct. qui est 2. de Annunt. Dominii.[↩]
- Id. Serm. 5. qui est. 10. de Annunt.[↩]
- Vide Maced. supr. num. 16. et apud ipsis ibi ; Man. Nun. supra.[↩]
- Cant. 2. 14.[↩]
- Cald. hic. [↩]
- Cornel. Alapid.[↩]
- Revel. de S. Brig.[↩]
- D. August. ep. 119. et 18.[↩]
- D. Joan Chrysostom. apud Fonc. supra.[↩]
- Exod. 15. et 21.[↩]
- Paral. 16. 9.[↩]
- Tob. 12. 6.[↩]
- Ibid. sed. v. 7. [↩]
- Ibid.[↩]
- Ibid. sed v. 18.[↩]
- Eccli. 39. 20.[↩]
- Isai. 15. 5.[↩]
- Id. 42. 10.[↩]
- Jerem. 20. 13.[↩]
- Psalm. 95. 1.[↩]
- Ibid.[↩]
- Psalm. 65. 1.[↩]
- Psalm. 97. 5.[↩]
- Psalm. 46. 8.[↩]
- Psalm. 38. 8.[↩]
- D. Hieron. Ibi.[↩]
- Cassiod.[↩]
- Eccli. 32. 5.[↩]
- Psalm. 88. 16.[↩]
- Hilar. Pictav. super. Psal. 65.[↩]
- Maced. Eva e Av. part.1. cap. 24. num. 1.[↩]
- Pereyr. elucid. lib. 1. elucid. 2. sect. 2. n. 38; Man. Nun. Art. min. tr. das Explan. na 2. n. 21.in fin.[↩]
- Esther 13. 16.[↩]
- Reg. 10. 5.[↩]
- Vermil. Flagio. Abulens. in Exod. cap. 11. quaest. 4; Rangol. in. 1. Reg. fol. 1239. et aliis. apud Frouv. nos seus Discurs. sobre a perfeyc. do Diates. fol. mihi 76.[↩]
- Paral. 15. 22.[↩]
- A Lapid. hic.[↩]
- Ibid.[↩]
- Psalm. 46. 2.[↩]
- D. Hieron. lib. 2. Commentar. in cap. 16. Math.[↩]
- Reyner. in Psalm. 46.[↩]
- Psalm. 32. 3. [↩]
- D. August. Lib. 1. suae Mus. cap. 3.[↩]
- Raban. de Cleric. inst. apud Abr. defin. et qualit. Paroch. lib. 1. cap. 6. num. 52.[↩]
- Abr. lib. 1. defin. et qualit. Paroch. cap. 6. num. 52. in fin.[↩]