{"id":521,"date":"2025-04-21T20:38:39","date_gmt":"2025-04-21T23:38:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pensar.musica.ufrn.br\/?page_id=521"},"modified":"2025-04-21T20:56:57","modified_gmt":"2025-04-21T23:56:57","slug":"escola-de-canto-de-orgao-parte-i-dialogo-preliminar","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/pensar.musica.ufrn.br\/index.php\/projetos-em-andamento\/escola-de-canto-de-orgao-parte-i-dialogo-preliminar\/","title":{"rendered":"Escola de Canto de \u00d3rg\u00e3o &#8211; Parte I &#8211; Di\u00e1logo Preliminar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">[p. 1]<br>ESCOLA<br>DE CANTO DE \u00d3RG\u00c3O<br>M\u00fasica praticada<br>em forma<br>de<br>DI\u00c1LOGO<br>Entre<br>Disc\u00edpulo, e Mestre.<br>PARTE I<br>da<br>Musica Theorica.<br>DI\u00c1LOGO<br>Preliminar, ou introdut\u00f3rio, no qual se mostra a estima\u00e7\u00e3o, que sempre teve, e deve ter a M\u00fasica pela nobreza da sua origem, e excel\u00eancias de suas virtudes, e por fim se prop\u00f5em os principais preceitos da Arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por dar desafogo ao \u00e2nimo, ocupado em exerc\u00edcios de Minerva intentou buscar al\u00edvio em uma tarde nos primores de Flora certo M\u00fasico de conhecida nota. Saiu enfim ao prado, lisonjeiro matiz da Primavera: e a poucos passos, recreando a vista no mimo das flores, viu na sua puer\u00edcia recortado na relva (como em ber\u00e7o de esmeraldas) a um gentil Menino, que no pesado semblante mostrava padecer de algum cuidado. Teve-o tamb\u00e9m o prudente M\u00fasico em observar de mais perto, o que presumiu de longe. Continuou os passos, e aproximou-se ao lugar, ou fosse por curioso, ou por compassivo, se n\u00e3o era para ali mesmo a vereda, que levava. Levantou-se pol\u00edtico o Menino, que al\u00e9m da gravidade, que representava em seu aspecto, com as urbanidades do cortejo roubou tanto as aten\u00e7\u00f5es do var\u00e3o M\u00fasico, que o obrigou com maior gosto, e vontade a parar tamb\u00e9m ali. Sentaram-se ambos; bem que o cort\u00eas Menino, ou em abono da sua boa educa\u00e7\u00e3o, ou em press\u00e1gio de futuros sucessos, [p. 2] nem foi o primeiro, nem quis sem muitas ser segundo. Verdade \u00e9 que era M\u00fasico var\u00e3o por Mestre conhecido, como aqui com a letra M o denotamos: mas, para tanto respeito, n\u00e3o era ainda o Menino seu Disc\u00edpulo, como j\u00e1 tamb\u00e9m aqui o denotamos com a letra D. Enfim observando o M\u00fasico, descobriu logo no Menino maiores evid\u00eancias de cuidado: e para poder saber qual fosse, travou com ele conversa, a qual foi desta maneira.<br>M. Foi sempre, meu Menino, o semblante do rosto \u00edndice do cora\u00e7\u00e3o: e oscuro de alguma pena, ou cuidado julgo estar agora o vosso, pois o mostra o vosso rosto submergido entre sombras de tristeza. Se dela me podeis dizer a causa, o estimarei; porque sendo de coisa, que caiba na minha esfera, tende por certo que de boa vontade vos darei o rem\u00e9dio.<br>D. Na verdade, Senhor, que n\u00e3o vos enganais; porque aflito certamente estou de algum cuidado, cuja causa sem repugn\u00e2ncia vos direi, ou obrigado da vossa caridade, ou do meu pr\u00f3prio interesse; pois n\u00e3o ser\u00e1 esta a vez primeira que ache al\u00edvio talvez o mal comunicado.<br>Sabei, pois, que olhando para a nobreza do meu sangue, e vendo a obriga\u00e7\u00e3o, que tenho de o ilustrar com os esmaltes das boas artes, e ci\u00eancias, entre elas (por inata inclina\u00e7\u00e3o) desejava com maior vontade aplicar-me a aprender a M\u00fasica; mas vejo-o t\u00e3o abatida dos nobres deste pa\u00eds, que receio deles (por aprend\u00ea-la) alguma nota, ou menos pre\u00e7o \u00e0 minha pessoa. E deste receio por uma parte combatido, e por outra da minha pr\u00f3pria inclina\u00e7\u00e3o, estava aqui agora pensativo, sem saber resolver-me ao que fizesse: que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil resolver-se o homem contra a pr\u00f3pria inclina\u00e7\u00e3o.<br>M. Desgra\u00e7ada \u00e9 a M\u00fasica em nossos tempos, por isso \u00e9 t\u00e3o desprezada; mas nem por isso deixa de ser aquela nobil\u00edssima ci\u00eancia, que S. Agostinho <sup><a href=\"#footnote_1_521\" id=\"identifier_1_521\" class=\"footnote-link footnote-identifier-link\" title=\"Div. August. lib. 1. suae Mus.\">1<\/a><\/sup> proclama Arte Divina: e queixando-se (j\u00e1 ent\u00e3o) que a sua nobreza n\u00e3o era conhecida, antes desprezada na terra: Quoniam vilescit in terris: amea\u00e7a ao mundo com dizer que tornar\u00e1 a recolher-se no C\u00e9u. E diz o mesmo Santo Doutor, e com ele os mais Te\u00f3logos <sup><a href=\"#footnote_2_521\" id=\"identifier_2_521\" class=\"footnote-link footnote-identifier-link\" title=\"Matut. na Pro sap. de Christ. edad. 4. cap. 11. &sect;. 8.\">2<\/a><\/sup> que o ser algu\u00e9m amante da M\u00fasica, \u00e9 ter uma tal qual congru\u00eancia, ou sinal de predestinado. Porque, como ensinam os Pitag\u00f3ricos <sup><a href=\"#footnote_3_521\" id=\"identifier_3_521\" class=\"footnote-link footnote-identifier-link\" title=\"Apud Boet. in sua Mus. Lib. 3\">3<\/a><\/sup> e Plat\u00f4nicos, a parte superior da nossa alma tem com ela tal v\u00ednculo, e parentesco, que a deseja, como a centro <sup><a href=\"#footnote_4_521\" id=\"identifier_4_521\" class=\"footnote-link footnote-identifier-link\" title=\"Pedr. Sanch. de Vien. na traduc. de Ovid. Metam. apud Maced. Eva e Av. part. 1. cap. 22. num 2.\">4<\/a><\/sup>; e por isso come\u00e7a logo na terra a gostar do exerc\u00edcio, que h\u00e1 de ter depois no c\u00e9u. Segui, pois, meu Menino, segui nessa parte a vossa inclina\u00e7\u00e3o; que a ci\u00eancia da M\u00fasica tem muitos abonos para dar, e n\u00e3o para tirar a estima\u00e7\u00e3o. S. Greg\u00f3rio Magno Papa n\u00e3o deixou de ser grande pela saber, e ensinar ele mesmo aos meninos (ainda quando enfermo) para cantarem no coro <sup><a href=\"#footnote_5_521\" id=\"identifier_5_521\" class=\"footnote-link footnote-identifier-link\" title=\"Paul. Diac. in vita.\">5<\/a><\/sup>. S. Luiz Rei de Fran\u00e7a n\u00e3o abateu da Cesarea Majestade, nem Carlos Magno <sup><a href=\"#footnote_6_521\" id=\"identifier_6_521\" class=\"footnote-link footnote-identifier-link\" title=\"Alexand. Perier, Deseng. de Peccad. discurs. 5.\">6<\/a><\/sup> deslustrou a Imperial coroa, por saberem M\u00fasica, e cantarem publicamente em honra das solenidades, e cultos da Igreja.<br>D. Parece que dizeis bem; e j\u00e1 com esses exemplos quase me sinto abalado: mas como s\u00e3o antigos, e falando a respeito da minha p\u00e1tria (pois dela nunca sa\u00ed) vejo t\u00e3o abatida esta ci\u00eancia, pode ser que ainda assim queira mais depressa deixar de a aprender, do que arriscar a opini\u00e3o da minha nobreza com os meus iguais, que de presente a desestimam.<br>M. Oh (outra vez) desgra\u00e7ada Arte da M\u00fasica, t\u00e3o desprezada, hoje dos n\u00e9scios, como estimada sempre dos s\u00e1bios, e grandes do mundo! Mas [p. 3] que tenho que admirar-me, se sempre dos n\u00e9scios foi desprezada a sabedoria? <sup><a href=\"#footnote_7_521\" id=\"identifier_7_521\" class=\"footnote-link footnote-identifier-link\" title=\"Prov. 1. 7.\">7<\/a><\/sup> Sapientiam, atque doctrinam stulti despiciunt. Se soub\u00e9reis, meu Menino, que coisa \u00e9 M\u00fasica, quanto por Deus nos \u00e9 recomendado, seus admir\u00e1veis efeitos, sua nobreza, e as estima\u00e7\u00f5es que sempre teve, e deve ter, talvez que sem mais repare vos aplic\u00e1sseis a ela antes, do que \u00e0s mais ci\u00eancias.<br>D. Pois sendo assim, folgarei muito de ouvir alguma coisa, ao menos para recrea\u00e7\u00e3o do \u00e2nimo, e lisonja da vontade.<br>M. Com muito gosto o direi: e j\u00e1 que assim o quereis, dai-me aten\u00e7\u00e3o. A 1\u00aa. coisa, que aqui agora se nos oferecia, era o dizer que coisa \u00e9 M\u00fasica: mas como nos poder\u00e1 faltar a tarde, e isso n\u00e3o faz agora muito ao nosso intento, vamos primeiro, e j\u00e1 dizendo alguma coisa da origem, nobreza, e estima\u00e7\u00e3o da mesma M\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/pensar.musica.ufrn.br\/index.php\/projetos-em-andamento\/escola-de-canto-de-orgao-parte-i-indice\/\" data-type=\"page\" data-id=\"507\">Voltar ao \u00cdndice<\/a> da Escola de Canto de \u00d3rg\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<ol class=\"footnotes\"><li id=\"footnote_1_521\" class=\"footnote\">Div. August. lib. 1. suae Mus.<span class=\"footnote-back-link-wrapper\">[<a href=\"#identifier_1_521\" class=\"footnote-link footnote-back-link\">&#8617;<\/a>]<\/span><\/li><li id=\"footnote_2_521\" class=\"footnote\">Matut. na Pro sap. de Christ. edad. 4. cap. 11. \u00a7. 8.<span class=\"footnote-back-link-wrapper\">[<a href=\"#identifier_2_521\" class=\"footnote-link footnote-back-link\">&#8617;<\/a>]<\/span><\/li><li id=\"footnote_3_521\" class=\"footnote\">Apud Boet. in sua Mus. Lib. 3<span class=\"footnote-back-link-wrapper\">[<a href=\"#identifier_3_521\" class=\"footnote-link footnote-back-link\">&#8617;<\/a>]<\/span><\/li><li id=\"footnote_4_521\" class=\"footnote\">Pedr. Sanch. de Vien. na traduc. de Ovid. Metam. apud Maced. Eva e Av. part. 1. cap. 22. num 2.<span class=\"footnote-back-link-wrapper\">[<a href=\"#identifier_4_521\" class=\"footnote-link footnote-back-link\">&#8617;<\/a>]<\/span><\/li><li id=\"footnote_5_521\" class=\"footnote\">Paul. Diac. in vita.<span class=\"footnote-back-link-wrapper\">[<a href=\"#identifier_5_521\" class=\"footnote-link footnote-back-link\">&#8617;<\/a>]<\/span><\/li><li id=\"footnote_6_521\" class=\"footnote\">Alexand. Perier, Deseng. de Peccad. discurs. 5.<span class=\"footnote-back-link-wrapper\">[<a href=\"#identifier_6_521\" class=\"footnote-link footnote-back-link\">&#8617;<\/a>]<\/span><\/li><li id=\"footnote_7_521\" class=\"footnote\">Prov. 1. 7.<span class=\"footnote-back-link-wrapper\">[<a href=\"#identifier_7_521\" class=\"footnote-link footnote-back-link\">&#8617;<\/a>]<\/span><\/li><\/ol>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[p. 1]ESCOLADE CANTO DE \u00d3RG\u00c3OM\u00fasica praticadaem formadeDI\u00c1LOGOEntreDisc\u00edpulo, e Mestre.PARTE IdaMusica Theorica.DI\u00c1LOGOPreliminar, ou introdut\u00f3rio, no qual se mostra a estima\u00e7\u00e3o, que sempre teve, e deve ter a M\u00fasica pela nobreza da sua origem, e excel\u00eancias de suas virtudes, e por fim se prop\u00f5em os principais preceitos da Arte. 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